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No Senhor toda graça e redenção!

COR LITÚRGICA: VERDE

10º Domingo do Tempo Comum | Domingo


Naquele tempo, Jesus voltou para casa com os seus discípulos. E de novo se reuniu tanta gente que eles nem sequer podiam comer.  Quando souberam disso, os parentes de Jesus saíram para agarrá-lo, porque diziam que estava fora de si.  Os mestres da Lei, que tinham vindo de Jerusalém, diziam que ele estava possuído por Belzebu, e que pelo príncipe dos demônios ele expulsava os demônios.  Então Jesus os chamou e falou-lhes em parábolas: “Como é que Satanás pode expulsar a Satanás?  Se um reino se divide contra si mesmo, ele não poderá manter-se.  Se uma família se divide contra si mesma, ela não poderá manter-se.  Assim, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído.  Ninguém pode entrar na casa de um homem forte para roubar seus bens, sem antes o amarrar. Só depois poderá saquear sua casa.  Em verdade vos digo: tudo será perdoado aos homens, tanto os pecados, como qualquer blasfêmia que tiverem dito.  Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, mas será culpado de um pecado eterno”.  Jesus falou isso, porque diziam: “Ele está possuído por um espírito mau”.  Nisso chegaram sua mãe e seus irmãos. Eles ficaram do lado de fora e mandaram chamá-lo.  Havia uma multidão sentada ao redor dele. Então lhe disseram: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura”.  Ele respondeu: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?”  E olhando para os que estavam sentados ao seu redor, disse: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos.  Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. (Mc 3,20-35)

Meus queridos amigos e amigas, a liturgia deste domingo nos coloca diante de algumas questões importantes, aqui iremos abordar algumas. Na primeira leitura, ouvimos o texto retirado do livro do Gênesis (3,9-15). Deus procura sua criatura mais amada: o homem. A pergunta colocada no texto é mais do que geográfica, ela é existencial: “onde você está?”.

Nas entrelinhas, essa pergunta feita a Adão é recolocada a cada um de nós hoje; é Deus querendo saber de que modo estamos vivendo. Deus nos fez próximos a Ele e sabe que, sempre que nos afastamos Dele, nos perdemos e sofremos. É lógico que, na onisciência de Deus, Ele já sabia o que acontecera com Adão e Eva, mas ao perguntar “aonde estava”, Deus dá a Adão a oportunidade de assumir sua vida, assumir sua atitude, refazer-se.

Contudo, o homem foge, se esconde, nega e passa a culpa a terceiros, perdendo a oportunidade de começar novamente com o perdão. Então ele foge e leva sua culpa. O que isso nos ensina? Creio que nós também erramos e fazemos isso muitas vezes… Sentimos vergonha, até medo. Mas Deus, em seu amor infinito, sempre vai nos perguntar: “aonde você está?”. Não para condenar, mas para nos ouvir, ouvir nosso pedido de desculpas, nosso arrependimento. Até porque, como podemos melhorar se não admitimos que erramos? É exatamente isso que aclamamos no Salmo 129: “No Senhor está a misericórdia e abundante redenção.”

Na segunda leitura, na segunda carta de Paulo aos Coríntios, ouvimos o Apóstolo dos Gentios afirmando: “Acreditei, por isso falei. Com este mesmo espírito de fé, também nós acreditamos, e por isso falamos.” Cremos ou não cremos no amor de Deus? Em sua misericórdia, em sua bondade…

No Evangelho deste domingo, encontramos dois tipos de encontros na cena narrada. O primeiro é entre Jesus, a multidão que ele curava e ensinava, e os mestres da lei. Nessa primeira parte, Jesus é rejeitado pelos sábios e acusado de ser um charlatão, que engana o povo com forças malignas. Entretanto, Jesus de imediato replica que o mal não se divide, pois assim seria ainda mais fraco. Ainda poderíamos dizer que o bem não se mistura ao mal. As obras maléficas não trazem nenhum bem, elas sempre retiram. O maior pecado é não acreditar, principalmente sabendo a verdade pelas obras. E aqueles fariseus, aqueles mestres da lei, não acreditaram e ainda espalharam mentiras para fugir da verdade. Deus nos procura, mas não nos força a nos vermos e aceitarmos o seu amor.

A segunda cena é a chegada da família de Jesus. Eles estavam preocupados, fazia dias que, inclusive, não se alimentavam direito. Diferente do que algumas pessoas leem e interpretam nestes versículos, Jesus não está maltratando seus familiares; Ele aproveita aquela ocasião para mostrar aos seus seguidores que fazer a vontade do Pai nos coloca dentro da família de Deus. Foi exatamente o que Adão e Eva não fizeram. Fizeram sua própria vontade e foram “retirados” de sua convivência. Vamos fazer parte da família de Jesus sempre que fizermos a vontade de seu Pai.


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São Sebastião / Iguaracy – PE

Dai à vossa igreja, que espera e deseja, vossos sete dons

COR LITÚRGICA: VERMELHO

Solenidade de Pentecostes | Domingo


Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”. (Jo 20,19-23).

Amados irmãos e irmãs,

Concluímos os cinquenta dias do tempo pascal, um longo tempo para uma grande festa, na verdade, a festa da fé. E o ciclo pascal culmina com a solenidade de Pentecostes. Literalmente, a palavra Pentecostes vem do grego e significa “quinquagésimo”. É bom entendermos isso para sabermos o que estamos celebrando. Esta já era uma festa dos judeus em memória do dia em que Moisés recebeu de Deus as Tábuas da Lei. Agora, com os cristãos, tornou-se a celebração da recepção do Espírito Santo na comunidade, após a Páscoa de Cristo.

Sobre a primeira leitura, retirada do livro dos Atos dos Apóstolos, é bom situar essa roupagem dada pelo escritor, de coincidir a chegada do Paráclito com a festa dos judeus. Pois o dom do Espírito no dia em que a comunidade judaica celebrava a aliança e o dom da Lei, no Sinai, Lucas não está a situar cronologicamente um acontecimento, mas está a sugerir que a comunidade nascida de Jesus é a comunidade da Nova Aliança e que o Espírito será a sua Lei. O caminho que essa comunidade vai percorrer não será balizado por uma Lei externa, escrita em tábuas de pedra (como a Lei do Sinai), mas será desenhado pelo Espírito Santo que reside no coração dos discípulos. A comunidade nascida de Jesus e dirigida pelo Espírito é o novo Povo de Deus.

Já o texto do evangelho que a liturgia da Solenidade do Pentecostes nos apresenta descreve esse encontro entre Jesus ressuscitado e a sua comunidade. Percebam primeiramente que é basicamente o mesmo Evangelho proclamado nos primeiros dias da Páscoa. O Evangelista João começa por descrever a situação em que estavam os discípulos antes de Jesus lhes aparecer: o “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo”, traduzem a insegurança e o desamparo que eles sentem diante desse mundo hostil que condenou Jesus à morte. Ah, quantas vezes nós também nos sentimos exatamente assim, seja como pessoa, seja como comunidade. É justamente o Espírito Santo, a sua paz, a sua sabedoria, a sua força que nos faz caminhar.

Para que os discípulos possam concretizar a missão, Jesus realiza um gesto inesperado, mas bem significativo: “soprou” sobre eles (vers. 22). Esse gesto nos remete a outro texto, nos dois primeiros capítulos do Gênesis. Deus que sopra nas narinas de Adão para lhe dar a vida. O Espírito é vida, e quem nos anima é o dom de Deus, a vida vem de Deus. Jesus transmite aos discípulos a Vida nova, o Espírito Santo, que fará deles Homens Novos e que os capacitará para viverem como testemunhas do Ressuscitado. Trata-se, em boa verdade, de uma nova Criação.

Fico a imaginar se deixarmos esse sopro entrar em nós, fazer de nós um novo homem, uma nova mulher, nos dando ânimo. Assim como quem perde o ar, perde a vida, também quem perde a fé, perde o sentido de viver. E em nossas comunidades, se perdemos o Espírito Santo, também deixamos que a comunidade morra. Perdemos a unidade, perdemos o amor.

Deixo por fim uma questão: somos animados, impelidos pelo Espírito Santo, ou pelo espírito maligno? Somos pessoas de reconciliação ou divisão? De misericórdia ou condenação? De partilha ou egoísmo? Da verdade ou da mentira?

Que o Espírito Santo nos guie e nos renove sempre. Amém.


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São Sebastião / Iguaracy – PE

O caminho para o céu

COR LITÚRGICA: BRANCO

Solenidade da Ascensão do Senhor | Domingo


Naquele tempo, Jesus se manifestou aos onze discípulos, e disse-lhes: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura! Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado. Os sinais que acompanharão aqueles que crerem serão estes: expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas; se pegarem em serpentes ou beberem algum veneno mortal não lhes fará mal algum; quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados”. Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus. Os discípulos então saíram e pregaram por toda parte. O Senhor os ajudava e confirmava sua palavra por meio dos sinais que a acompanhavam.

Hoje celebramos a Solenidade da Ascensão do Senhor Jesus ao céu. Neste momento, recordamos a vida de Cristo, que, após ressuscitar e manifestar-se aos seus discípulos e apóstolos para confirmar as profecias e renovar a fé e a esperança da comunidade de discípulos, agora retorna definitivamente ao Pai, sendo glorificado por sua obediência e fidelidade ao projeto divino. Assim, celebramos o retorno de Cristo, do Verbo encarnado, à direita do Pai. É a nossa humanidade glorificada nele. Jesus, ao retornar para junto do Pai, abre-nos o caminho para o céu, restabelecendo nossa intimidade com Deus, no lugar do paraíso do qual fomos expulsos. Ele se eleva não para se distanciar de nós, mas para nos aproximar ainda mais do Pai e da eternidade.

Na primeira leitura desta liturgia, vemos essa cena: Jesus reúne seus seguidores e se despede deles, dando-lhes as últimas instruções. “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra.” Este versículo nos mostra claramente a missão que nos foi confiada: sermos testemunhas! Um testemunha é alguém que viu algo, que escutou, que provou. Para isso, é necessário estar próximo. Fica aqui a provocação… Temos sido próximos de Jesus? Temos testemunhado como pessoas que O conhecem?

“Homens da Galileia, porque estais a olhar para o céu?” Este versículo também é muito especial. Ficar olhando para cima, admirados com aquela linda cena… Não! Essa não é a tarefa dada. Ficar esperando sem nada fazer, apenas contemplando a vida passar, vivendo de conjecturas… Tem muita gente assim em nosso meio, sem ação, sem testemunho, sem vivência. Não basta ficar olhando para o céu para chegarmos lá.

Na carta aos Efésios, Paulo fala sobre o tema do projeto salvador de Deus (aquilo que Paulo chama de “o mistério”): definido desde toda a eternidade. O projeto salvador de Deus concretiza-se agora na Igreja, o Corpo de Cristo, sacramento de salvação, onde judeus e pagãos se encontram e vivem em unidade. Paulo percebe isso e ressalta.

No Evangelho, o conteúdo é muito semelhante à primeira leitura, tratando-se da despedida de Jesus. Ele nos confia uma missão, e ela é ampla. Marcos é sucinto, não descreve detalhes, mas reafirma que o Senhor os ajudava em seus sinais.

De uma coisa devemos ter certeza: nossa esperança! Cremos que o Mestre voltou para o Pai e retornará para cumprir sua promessa de fazer um novo céu e uma nova terra.

A pergunta que fica é: você está se preparando?


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São Sebastião / Iguaracy – PE

O amor vem de Deus

COR LITÚRGICA: BRANCO

6º Domingo da Páscoa


Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. Eu eu vos disse isso, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena. Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai. Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça. O que então pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo concederá. Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros”. (Jo 15,9-17)

Queridos irmãos e irmãs, caros leitores e agora ouvintes. Estamos vivenciando o sexto Domingo da Páscoa, e neste Domingo o tema central é o amor. A palavra amor se repete diversas vezes nas leituras proclamadas e em várias formas. Mas afinal, de que amor se trata? Não é o amor de novelas, de fantasia, o amor de jovens namorados, ou até mesmo o amor filial, ou fraternal. O amor que é tratado aqui é o amor de Deus pela sua criação. Podemos dizer que este é o amor modelo, ou fontal, pois é dele que nascem os demais, ou deveriam…

Poderíamos nos perguntar, por que razão este é colocado como modelo? Pensemos um pouco a partir da primeira leitura (Atos). Enquanto nós criamos critérios para amarmos, Deus simplesmente nos ama porque existimos. Somos nós que dizemos: “eu amo você se…”. Deus apenas diz: “eu te amo.” Mesmo que nós não o queiramos, mesmo que não o reconheçamos, Ele nos ama. E assim como na nossa pobre e limitada vida, quem sai perdendo é quem despreza um amor dado, e não quem oferece o amor, também somos nós que saímos perdendo quando desprezamos o dom do amor de Deus.

Na passagem retirada do livro dos Atos, Pedro descobre exatamente isso. Que Deus ama a todos, sem critérios étnicos, e demonstra esse amor ao manifestar naquela porção de fiéis tidos como pagãos os dons do Espírito Santo. Então como não batizá-los? O amor de Deus não tem barreiras, limites ou regras. Essas coisas somos nós que criamos. “Não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou.”

Na segunda leitura retirada da carta de São João, Deus é literalmente identificado como o próprio amor, e “quem não ama não conhece a Deus.” Ora, estamos em uma sociedade e em um tempo onde é invocado a cada dia uma força para se afirmar como cristãos, cristãos de valores etc… Mas convido você a uma breve reflexão, para encontrarmos os critérios desse cristianismo, e avaliarmos se ele está em comunhão com esse ensinamento Joanino: Quais são os sinais visíveis da expressão do amor de Deus? Estaria o amor de Deus na violência? No ódio? No racismo? Na guerra? Em armas? Na exclusão? (Pode-se pensar em outras coisas também).

Pois bem, então agora se pergunte: eu estou de fato sendo um seguidor de Jesus Cristo? Do Deus que é amor? Pode ser que você tenha criado um outro Deus… O Evangelho deste Domingo segue a mesma linha, permanecer no amor de Cristo para fazer a vontade de Cristo e a vontade do Pai. A relação do Pai com Jesus é o modelo da relação que Jesus pretende manter com os discípulos. O Pai amou Jesus e demonstrou-lhe sempre o seu amor; e Jesus correspondeu ao amor do Pai, cumprindo os seus mandamentos. Da mesma forma, Jesus amou os discípulos e demonstrou-lhes sempre o seu amor; e os discípulos devem corresponder ao amor de Jesus, cumprindo os seus mandamentos (versículo 9-10).

Ele amou “até ao extremo”, numa doação total. Quem é “de Jesus” é convidado a viver do mesmo jeito, amando e doando a própria vida como Ele fez. É isto que fazemos, é assim que vivemos? Os homens e as mulheres que se cruzam conosco na estrada da vida veem brilhar em nós o amor de Jesus? As nossas comunidades, nascidas do amor de Jesus, são, realmente, cartazes vivos que anunciam e testemunham o amor, ou são espaços de conflito, de divisão, de luta pelos próprios interesses, de realização de projetos egoístas?

Tenho certa impressão que ainda estamos confusos, pensando e seguindo outro modelo de amor, que não é o de Jesus…


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São Sebastião / Iguaracy – PE

“Permanecei em mim”

COR LITÚRGICA: BRANCO

5º Semana da Páscoa | Domingo


Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos: “Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que em mim não dá fruto ele o corta; e todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda. Vós já estais limpos por causa da palavra que eu vos falei. Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permaneceu em mim, e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Quem não permanecer em mim, será lançado fora como um ramo e secará. Tais ramos são recolhidos, lançados no fogo e queimados. Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e vos será dado. Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos. (Jo 15,1-8).

Amados leitores e ouvintes, irmãos em Cristo. Na liturgia do quinto Domingo do tempo pascal, temos uma palavra-chave, que se faz presente em todas as leituras proclamadas: permanecer.

Permanecer é um verbo, indica a ação de conservar-se, persistir. Logo na primeira leitura, vemos o exemplo do jovem Saulo de Tarso, que depois tornara-se Paulo.

Após sua experiência com Cristo Ressuscitado no caminho, e a cura de sua visão em Damasco, ele procura a Igreja que está em Jerusalém com os apóstolos, para juntar-se a eles.

Entendamos, Paulo tem uma experiência particular, um encontro, mas ele sabe que isso não é suficiente para permanecer com seu novo mestre Jesus.

Por isso ele busca, ele tenta unir-se, com a comunidade dos discípulos de Jesus, para aprender com os demais, para ajudar. Este simples gesto de Paulo deveria repercutir em nosso coração. Ninguém permanece com Jesus, afastando-se da comunidade. É necessário procurarmos juntarmo-nos aos demais discípulos de Jesus. Sozinhos não iremos a lugar nenhum.

A segunda leitura vai na mesma direção, o autor da carta de João: “acreditar no nome de seu Filho, Jesus Cristo, e amar-nos mutuamente, como Ele nos mandou.” Aqui vemos duas implicações, a primeira é professar a fé com a boca, e a segunda é concretizar aquilo que se diz com as atitudes. E esta segunda é modelada pelo próprio Jesus. Esta forma de viver aquilo que se acredita é o que definirá nossa união ou separação ao Cristo:

“Quem observa os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele. E sabemos que permanece em nós pelo Espírito que nos concedeu.”

Percebamos a expressão novamente: permanecer! Manter-se unido a Jesus para executar os seus mandatos. E essa se verifica, segundo o autor, no amor de nossas relações. Portanto, novamente a questão de que não conseguimos ser cristãos fora da comunidade.

No Evangelho, Jesus, em um contexto de despedida, prepara sua comunidade de discípulos para algo que acontecerá. Ensina aos seus que para manter-se vivos, seria necessário que estivessem sempre unidos a Ele, mesmo que fisicamente estivesse longe. Está unido, permanecer com Jesus é manter-se unido às suas palavras, a tudo que ensinou, hoje usamos outra palavra que expressa esse permanecer: fazer comunhão.

Jesus apresenta-Se como a “verdadeira videira” (vers. 1). A Ele, a “verdadeira videira”, estão ligados os “ramos”. Os “ramos” são, nesta alegoria, os discípulos de Jesus. Esta “verdadeira videira” e estes ramos são, portanto, o novo Povo de Deus, somos nós hoje também. Da ação criadora e vivificadora de Jesus irá nascer o novo Povo de Deus, a comunidade do Reino.

Jesus nos faz um convite! Um convite a que o discípulo, ou seja, cada um de nós, mantenhamos a nossa adesão a Jesus, a nossa identificação com Ele, a nossa comunhão com Ele. Se o discípulo mantiver a sua adesão, Jesus, por sua vez, permanece no discípulo – isto é, continuará fielmente a oferecer ao discípulo a sua Vida/Espírito.

Tal união não se dá de uma única vez e permanente, mas com o trabalho diário em fortalecer este laço. O discípulo tem de continuar a escutar as suas indicações e de continuar a assumir, em cada passo, o seu estilo de viver e de amar. E ninguém faz isso isolado, fechado… portanto, nós unamos a nossa comunidade de fé, para permanecermos também unidos a Jesus.


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São Sebastião / Iguaracy – PE

“Eu sou o Bom Pastor! E vós sois minhas ovelhas?”

COR LITÚRGICA: BRANCO

4º Domingo da Páscoa, Ano B


Naquele tempo, disse Jesus:
“Eu sou o bom pastor.
O bom pastor dá a vida por suas ovelhas.
O mercenário, que não é pastor
e não é dono das ovelhas,
vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge,
e o lobo as ataca e dispersa.
Pois ele é apenas um mercenário
e não se importa com as ovelhas.
Eu sou o bom pastor.
Conheço as minhas ovelhas,
e elas me conhecem,
assim como o Pai me conhece
e eu conheço o Pai.
Eu dou minha vida pelas ovelhas.
Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil:
também a elas devo conduzir;
escutarão a minha voz,
e haverá um só rebanho e um só pastor.
É por isso que o Pai me ama,
porque dou a minha vida,
para depois recebê-la novamente.
Ninguém tira a minha vida,
eu a dou por mim mesmo;
tenho poder de entregá-la
e tenho poder de recebê-la novamente;
esta é a ordem que recebi do meu Pai”. Jo 10,14


O Quarto Domingo da Páscoa é considerado o “Domingo do Bom Pastor”, pois todos os anos, neste domingo, somos convidados a escutar um trecho do capítulo 10 do Evangelho segundo João, no qual Jesus é apresentado como “Bom Pastor”.

Logo na primeira leitura traz-nos um testemunho de Pedro, proclamado em Jerusalém diante das autoridades judaicas: Jesus é o único Salvador, já que “não existe debaixo do céu outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos”. É a forma, muito particular, que Pedro encontrou para dizer que Jesus é o único pastor que nos conduz em direção à Vida verdadeira.

Pedro remata o seu discurso garantindo que Jesus é a fonte única de onde brota a salvação – não só a libertação dos males físicos, mas a salvação entendida como totalidade, como Vida definitiva, como realização plena do homem. Jesus (o nome hebraico “Jesus” significa “Javé salva”) é o único canal através do qual a salvação de Deus atinge os homens (vers. 12).

É uma afirmação ousada e contundente, sobretudo se considerarmos que é feita “olhos nos olhos” com aqueles que condenaram Jesus como blasfemo e inimigo de Deus. Haverá também, nesta afirmação, uma sugestão para os que aderiram a Jesus: que eles aceitem ser testemunhas da salvação, levando o nome e a proposta de Jesus a todo o lado.

Podemos dizer que Cristo é, para os cristãos, a referência fundamental? Nós cristãos fizemos d’Ele, efetivamente, a “pedra angular” sobre a qual construímos a nossa vida e a história do nosso tempo? A preocupação dos discípulos não deve ser apresentar um testemunho politicamente correto, que não incomode os poderes instituídos e não traga perseguições à comunidade do Reino; mas deve ser um discurso corajoso e coerente, que tem como preocupação fundamental apresentar com fidelidade a proposta de salvação que Jesus veio fazer.

O texto que nos é proposto como segunda leitura neste terceiro domingo da Páscoa integra a segunda parte da carta (cf. 1 Jo 3,1-24). Aí, o autor lembra aos crentes a sua condição de filhos de Deus e exorta-os a viver no dia a dia de forma coerente com essa filiação.

Na segunda leitura, o autor da primeira Carta de João convida-nos a contemplar o amor de Deus pelo homem. É porque nos ama com um “amor admirável” que Deus está apostado em levar-nos a superar a nossa condição de debilidade e de fragilidade. Por isso, Deus enviou-nos Jesus, o Bom Pastor.

A condição de “filhos de Deus”, que fazem as obras de Deus, coloca os crentes numa posição singular diante do “mundo”. Como “filhos de Deus”, que vivem de forma coerente com as propostas de Deus, eles conduzem as suas vidas com valores diferentes dos valores do “mundo”; por isso, o “mundo” irá ignorá-los ou mesmo persegui-los, recusando a proposta de vida que eles testemunham. Não é nada de novo nem de surpreendente: o “mundo” também recusou Cristo e a sua proposta de salvação (vers. 1b). Como Jesus, aguentamos os embates do mundo e mantemo-nos coerentes com a nossa condição de “filhos de Deus”?

De acordo com o Evangelho de João, Jesus teria pronunciado o “discurso do Bom Pastor” (cf. Jo 10) em Jerusalém, em contexto da “festa da Dedicação do Templo” (cf. Jo 10,22). Esta festa (chamada, em hebraico, “Hanûkkah”) celebra a purificação do Templo de Jerusalém (164 a.C.), por Judas Macabeu, após o rei selêucida Antíoco IV Epifânio o ter profanado (167 a.C.), construindo um altar em honra de Zeus no espaço sagrado.

É a festa da Luz. O símbolo por excelência dessa festa é um candelabro de oito braços (“hanûkkiyyah”), que vão sendo progressivamente acesos durante os oito dias que a festa dura. Jesus tinha, pouco antes, curado um cego de nascença, assumindo-se como “a Luz” que veio para iluminar as trevas do mundo (cf. Jo 8,12; 9,1-41).

O evangelho que a liturgia deste 4º domingo da Páscoa nos propõe começa com uma solene apresentação que Jesus faz de si próprio: “Eu sou o Bom Pastor”. O adjetivo “bom” deve, neste contexto, entender-se no sentido de “modelo”, de “ideal”. E Jesus explica, logo de seguida, que o “pastor modelo” é aquele sendo capaz de dar a própria vida pelas suas ovelhas (vers. 11).

Ao dar a sua vida, Jesus está consciente que não perde nada (vers. 18). Quem gasta a vida ao serviço do projeto de Deus, não perde a vida, mas está a construir para si e para o mundo a Vida eterna e verdadeira. O seu dom não termina em fracasso, mas em glorificação. Para quem ama, não há morte, pois o amor gera Vida definitiva.

A comunidade de Jesus não se esgota numa determinada instituição nacional, social ou cultural; é uma comunidade sem fronteiras, onde todos têm lugar. O que é decisivo, para integrar a comunidade de Jesus, é acolher a sua proposta, aderir ao projeto que Ele apresenta, segui-l’O.

No “rebanho” de Jesus, não se entra por convite especial, nem há um número restrito de vagas a partir do qual mais ninguém pode entrar. A proposta de salvação que Jesus faz destina-se a todos os homens e mulheres, sem exceção. O que é decisivo para entrar a fazer parte do rebanho de Deus é “escutar a voz” de Jesus, aceitar as suas indicações, tornar-se seu discípulo…


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São Sebastião / Iguaracy – PE

Deus ressuscitou-O dos mortos, e nós somos testemunhas disso

COR LITÚRGICA: BRANCO

3º Domingo da Páscoa


Naquele tempo, os dois discípulos contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão. Ainda estavam falando, quando o próprio Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: “A paz esteja convosco! ”Eles ficaram assustados e cheios de medo, pensando que estavam vendo um fantasma. Mas Jesus disse: “Por que estais preocupados, e por que tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um fantasma não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho”. E, dizendo isso, Jesus mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas eles ainda não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos. Então Jesus disse: “Tendes aqui alguma coisa para comer?” Deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles. Depois disse-lhes: “São estas as coisas que vos falei quando ainda estava convosco: era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Então Jesus abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras, e lhes disse: “Assim está escrito: ‘O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém’. Vós sereis testemunhas de tudo isso”. (Lc 24,35-48)

Amados irmãos e irmãs, chegamos ao terceiro domingo da Páscoa, e vamos caminhando junto à comunidade primitiva para entendermos e nos encontrarmos com Jesus Ressuscitado. Nas figuras de Pedro e João, é-nos apresentado o testemunho da primitiva comunidade de Jerusalém, apostada em continuar a missão de Jesus e em apresentar aos homens o projeto salvador de Deus. O autor dos Atos está convencido de que esse testemunho se concretiza, não só através da pregação, mas também da ação dos apóstolos.

Enquanto percorreu os caminhos da Palestina, Jesus manifestou, em gestos concretos de cura, a presença da salvação de Deus entre os homens; e, se essa salvação continua a derramar-se sobre os homens doentes e privados de vida e de liberdade, como aconteceu com aquele homem coxo que jazia na Porta Formosa, é porque Jesus continua presente, oferecendo aos homens a Vida nova e definitiva. Chegado aqui, Pedro aproveita para dizer àqueles israelitas que o escutam que ainda vão a tempo de acolher a salvação.

Através de Jesus, Deus quis oferecer-lhes a Vida; mas eles escolheram a morte. Preferiram preservar a vida de alguém que trouxe morte e condenar à morte alguém que oferecia a Vida. É necessário “arrepender-se” e “converter-se”. Estes dois verbos definem o movimento de reorientar a vida para Deus, de forma que Deus passe a estar novamente no centro da vida do homem e o homem passe a “dar ouvidos” às propostas de Deus.

Jesus não é uma figura do passado, que a morte venceu e que ficou sepultado no museu da história; mas é alguém que continua vivo, sempre presente nos caminhos do mundo, oferecendo aos homens uma proposta de Vida verdadeira, plena, eterna. Como é que os nossos irmãos que caminham ao nosso lado podem descobrir que Jesus está vivo e fazer uma experiência de encontro com Cristo ressuscitado? Jesus está vivo e atua hoje no mundo, quando os cristãos se comprometem na luta pela paz, pela justiça, pela liberdade, pelo nascimento de um mundo mais humano, mais fraterno, mais solidário.

Jesus está vivo e continua a realizar aqui e agora o projeto de salvação de Deus, quando os seus cristãos oferecem aos coxos a possibilidade de avançar em direção a um futuro de esperança, aos que vivem nas trevas a capacidade de encontrar a luz e a verdade, aos prisioneiros a possibilidade de ter voz e de decidir livremente o seu futuro. Os meus gestos anunciam aos irmãos com quem me cruzo nos caminhos deste mundo que Cristo está vivo?

Na segunda leitura, o autor destaca que o cristão é chamado à santidade e a viver uma vida de renúncia ao pecado. Deus chama-o a rejeitar o egoísmo, a autossuficiência, a injustiça, a opressão (trevas) e a escolher a luz. No entanto, o pecado é uma realidade incontornável, que resulta da fragilidade e da debilidade do homem. O cristão deve ter consciência desta realidade e reconhecer o seu pecado.

Não fazer isto é fechar-se na autossuficiência, é recusar a salvação que Deus oferece, é instalar-se no pecado. O cristão, em nome da verdade, reconhece a sua fragilidade e admite as suas falhas; contudo, não desespera. Ele sabe que Deus lhe oferece a sua salvação e que Jesus Cristo é o “advogado”. Uma outra coisa interessante é o termo usado pelo autor para se referir à sua comunidade: “filhinhos”. Quem ama cuida, corrige, alerta… em nossos dias, tem se tornado cada vez mais complicado a missão de guiar uma comunidade, pois são poucos que escutam ou aceitam uma correção do pastor.

Neste caso, o autor estava alertando e corrigindo sobre os erros pregados pelos hereges “pré-gnósticos” infiltrados nas comunidades, que distorciam a questão do conhecer Deus, limitando-a a questões intelectuais/filosóficas. “Conhecer Deus” não é ter de Deus um conhecimento teórico e abstrato, mas é viver em comunhão íntima com Deus, numa relação pessoal de proximidade, de familiaridade, de amor sem limites.

O episódio que Lucas nos relata no Evangelho deste terceiro domingo do tempo pascal situa-nos em Jerusalém, pouco depois da ressurreição. Os onze discípulos estão reunidos; já conhecem uma aparição de Jesus a Pedro, bem como o relato do encontro de Jesus ressuscitado com os discípulos de Emaús. Mas é bem provável que, apesar das notícias que lhes chegaram nas últimas horas sobre as aparições de Jesus, se sintam com medo, confusos, perturbados e cheios de dúvidas. Afinal, a maior parte deles ainda não tinha feito a experiência do encontro pessoal com Jesus ressuscitado.

O evangelista Lucas, nestes relatos pós-pascais, procura mostrar como os discípulos descobrem, progressivamente, Jesus vivo e ressuscitado. De acordo com Lucas, os onze não estão sozinhos; com eles estão “outros companheiros”. Lucas estará a referir-se a nós? Estará a convidar-nos para nos reunirmos aos onze para fazermos, com eles, a experiência de encontro com Jesus ressuscitado? Recordam do início de nossa reflexão? Estamos caminhando estes dias junto à comunidade primitiva…

O caminho da fé não é o caminho das evidências materiais, das provas palpáveis, das demonstrações científicas; mas é um caminho que se percorre com o coração aberto à revelação de Deus, pronto para acolher a experiência de Deus e da Vida nova que Ele quer oferecer. Foi esse o caminho que os discípulos percorreram.


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São Sebastião / Iguaracy – PE

Tocando nossas feridas com Sua Misericórdia

COR LITÚRGICA: BRANCO

2º Domingo da Páscoa


 Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”. Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”. Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel”. Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” Jesus lhe disse: “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, para que, crendo, tenhais a vida em seu nome. (Jo 20,19-31).


Amados irmãos e irmãs, Cristo Ressuscitou, Aleluia! Estamos vivenciando o tempo pascal, cinquenta dias que culminam em Pentecostes.

Nesta liturgia do segundo domingo do tempo pascal, é-nos apresentada a comunidade de Homens Novos que nasceu da cruz e da ressurreição de Jesus: a Igreja.

Essa comunidade vive e testemunha no mundo a Vida Nova de Deus e continua entendendo sua missão. Na primeira leitura, vemos os traços de uma comunidade ideal: todos vivem unidos na mesma fé e o amor fraterno se manifesta em gestos concretos de partilha e esperança.

No Evangelho, destacamos a importância de estar reunido. Não existe cristianismo isolado; eles aguardavam Jesus unidos, e O recebem também unidos.

Quem quiser “ver” e “tocar” Jesus ressuscitado, deve procurá-l’O no meio dessa comunidade que d’Ele nasceu e que d’Ele vive.

A atitude de Tomé nos ensina a reconhecer Jesus em nossas dores e humanidade. Onde muitos fogem e escondem, Jesus se revela. “Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.”

Portanto, neste Domingo da Misericórdia, levemos nossa fé onde temos nossas feridas abertas, e deixemos que Jesus as toque, para que Ele as transborde com Sua misericórdia e nos conduza a Sua ressurreição.

Que possamos nos alegrar ao encontrar Jesus ressuscitado e transmitir aquilo que nossa fé nos ofereceu: a paz. Uma santa Páscoa!


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São Sebastião / Iguaracy – PE

Ele está vivo por nós: Aleluia!

COR LITÚRGICA: BRANCO

Páscoa do Senhor | Domingo


Anúncio do Evangelho (Jo 20,1-9)

— Aleluia, Aleluia, Aleluia.

— O nosso cordeiro pascal, Jesus Cristo, já foi imolado. Celebremos, assim, esta festa, na sinceridade e verdade. (1Cor 5,7b-8a)

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo.

Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”.

Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou.

Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte.

Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou.

De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.


“Ó Deus, por vosso filho unigênito, vencedor da morte, abristes hoje para nós as portas da eternidade. Concede que, celebrando a ressurreição do Senhor, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos na luz da vida nova. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.” (Oração coleta da missa do dia de Páscoa, Missal, 2023)

É assim que iniciamos a liturgia deste Domingo de Páscoa. Reconhecendo que toda a entrega de Jesus, toda sua paixão e morte, foi para nos dar vida. E não uma vida passageira, de momentos, mas a Vida eterna, Ele nos recupera aquilo que perdemos no antigo homem Adão: o paraíso e a árvore-da-vida.

O testemunho do príncipe dos apóstolos, Pedro, (Atos dos Apóstolos 10,34a.37-43) nem parece mais com aquele Pedro que negou seu Mestre por três vezes. Pedro fala com tanta convicção, o que teria mudado? O que teria lhe dado tanta coragem? (Uma pausa para reflexão)

Foi a sua experiência com o Ressuscitado. Nos diz Pedro: “… Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder. Ele andou por toda a parte, fazendo o bem…” É inegável que quem vive na certeza da fé logo se reconhece. Agora não mais o sábado como o dia de guarda, que lembrara a antiga aliança, da saída do Egito e do repouso de Deus com sua criação. Agora é o Domingo, o “Dia do Senhor”, é assim que cantamos no Salmo de hoje: “Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!” ( Sl 117,1-2.16ab-17.22-23 (R.24)

O dia em que toda a criação é resgatada da perdição eterna, onde tudo é ressuscitado com Cristo. Não lembramos simplicidade da saída do Egito, da escravidão à liberdade, mas celebramos a Vitor da vida sob a morte.

A Carta de São Paulo aos Colossenses (3,1-4), nos alerta claramente para a razão pela qual ganhamos a vitória de Cristo: “irmãos: se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres.” Nossa Vitória com Cristo é maior que as conquistas deste mundo, das riquezas, das terras, dos prestígios… devemos ter consciência disso. Aliás, no cântico da sequência, ouvimos essa proclamação: Cantai, cristãos, afinal: “Salve, ó vítima pascal!” Cordeiro inocente, o Cristo abriu-nos do Pai o aprisco.

Sendo Cristo o novo e eterno Cordeiro do sacrifício, oferece de uma vez por todas o sacrifício perfeito, e nos abre o céu. No Evangelho de Jesus Cristo, segundo João 20,1-9, ouvimos o relato do primeiro encontro com o Ressuscitado, no Domingo, o dia do Senhor, o dia que Ele fez para nós.

Madalena tinha pressa, nem esperou o dia raiar, mas é assim que age quem ama… ela faria suas homenagens ao seu Mestre e faria os rituais próprios para o corpo. Ela não encontra o corpo e, enganada pela tristeza e pelo medo, leva a notícia errada, que roubaram o corpo de Jesus. Mas não julguemos, isso é compreensível, quando estamos tristes também não conseguimos entender bem o que ocorre diante de nós.

Pedro e outro discípulo chegam ao local e constatam algo estranho, faço um recorte, porque de fato esse detalhe é interessante: “Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas”. Esse gesto do pano está colocado à cabeceira e dobrado, indica algo interessante, pois, seguindo alguns costumes da época, isso remota a um retorno. O outro discípulo viu a cena e acreditou. Esse discípulo sem nome pode ser você! Sim, a promoção é justamente essa, o quanto precisamos ver para crer?

Uma Feliz Páscoa! Aleluia, aleluia, aleluia.


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São Sebastião / Iguaracy – PE

Entramos em Jerusalém com Jesus. Seguiremos até a cruz?

COR LITÚRGICA: VERMELHO

Domingo de Ramos


Anúncio do Evangelho (Mc 15,1-39 – Forma breve)

Narrador 1: Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo, segundo Marcos:

Logo pela manhã, os sumos sacerdotes, com os anciãos, os mestres da Lei e todo o Sinédrio, reuniram-se e tomaram uma decisão. Levaram Jesus amarrado e o entregaram a Pilatos. E Pilatos o interrogou:

Leitor 1: “Tu és o rei dos judeus?”

Narrador 1: Jesus respondeu:

— “Tu o dizes”.

Narrador 1: E os sumos sacerdotes faziam muitas acusações contra Jesus. Pilatos o interrogou novamente:

Leitor 1: “Nada tens a responder? Vê de quanta coisa te acusam!”

Narrador 1: Mas Jesus não respondeu mais nada, de modo que Pilatos ficou admirado. Por ocasião da Páscoa, Pilatos soltava o prisioneiro que eles pedissem. 7 Havia então um preso, chamado Barrabás, entre os bandidos, que, numa revolta, tinha cometido um assassinato. A multidão subiu a Pilatos e começou a pedir que ele fizesse como era costume. Pilatos perguntou:

Leitor 1: “Vós quereis que eu solte o rei dos judeus?”

Narrador 2: 10 Ele bem sabia que os sumos sacerdotes haviam entregado Jesus por inveja. 11 Porém, os sumos sacerdotes instigaram a multidão para que Pilatos lhes soltasse Barrabás. 12 Pilatos perguntou de novo:

Leitor 1: “Que quereis então que eu faça com o rei dos judeus?”

Narrador 2: 13 Mas eles tornaram a gritar:

— “Crucifica-o!”

Narrador 2: 14 Pilatos perguntou:

Leitor 1: “Mas, que mal ele fez?”

Narrador 2: Eles, porém, gritaram com mais força:

— “Crucifica-o!”

Narrador 2: 15 Pilatos, querendo satisfazer a multidão, soltou Barrabás, mandou flagelar Jesus e o entregou para ser crucificado. 16 Então os soldados o levaram para dentro do palácio, isto é, o pretório, e convocaram toda a tropa. 17 Vestiram Jesus com um manto vermelho, teceram uma coroa de espinhos e a puseram em sua cabeça. 18 E começaram a saudá-lo:

— “Salve, rei dos judeus!”

Narrador 1: 19 Batiam-lhe na cabeça com uma vara. Cuspiam nele e, dobrando os joelhos, prostravam-se diante dele. 20 Depois de zombarem de Jesus, tiraram-lhe o manto vermelho, vestiram-no de novo com suas próprias roupas e o levaram para fora, a fim de crucificá-lo.

Narrador 2: 21 Os soldados obrigaram um certo Simão de Cirene, pai de Alexandre e de Rufo, que voltava do campo, a carregar a cruz. 22 Levaram Jesus para o lugar chamado Gólgota, que quer dizer “Calvário”. 23 Deram-lhe vinho misturado com mirra, mas ele não o tomou. 24 Então o crucificaram e repartiram as suas roupas, tirando a sorte, para ver que parte caberia a cada um.

Narrador 1: 25 Eram nove horas da manhã quando o crucificaram. 26 E ali estava uma inscrição com o motivo de sua condenação: “O Rei dos Judeus”. 27 Com Jesus foram crucificados dois ladrões, um à direita e outro à esquerda.(28) 29Os que por ali passavam o insultavam, balançando a cabeça e dizendo:

— “Ah! Tu, que destróis o Templo e o reconstróis em três dias, 30 salva-te a ti mesmo, descendo da cruz!”

Narrador 1: 31 Do mesmo modo, os sumos sacerdotes, com os mestres da Lei, zombavam entre si, dizendo:

— “A outros salvou, a si mesmo não pode salvar! 32 O Messias, o rei de Israel… que desça agora da cruz, para que vejamos e acreditemos!”

Narrador 2: Os que foram crucificados com ele também o insultavam. 33 Quando chegou o meio-dia, houve escuridão sobre toda a terra, até as três horas da tarde. 34 Pelas três da tarde, Jesus gritou com voz forte:

— “Eloi, Eloi, lamá sabactâni?”

Narrador 2: Que quer dizer:

— “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”

Narrador 2: 35 Alguns dos que estavam ali perto, ouvindo-o, disseram:

— “Vejam, ele está chamando Elias!”

Narrador 2: 36 Alguém correu e embebeu uma esponja em vinagre, colocou-a na ponta de uma vara e lhe deu de beber, dizendo:

— “Deixai! Vamos ver se Elias vem tirá-lo da cruz”.

Narrador 1: 37 Então Jesus deu um forte grito e expirou. (Todos se ajoelham um instante) 38 Nesse momento, a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes. 39 Quando o oficial do exército, que estava bem em frente dele, viu como Jesus havia expirado, disse:

— “Na verdade, este homem era Filho de Deus!”

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.


Caros amigos e amigas, durante cinco semanas, quarenta dias, a começar pela quarta-feira de cinzas, fizemos um caminho no deserto, para enfrentarmos nossas feras interiores e dominarmos nossos maus comportamentos, vaidades, egoísmos e ira. Tudo isso é uma preparação para entrarmos em Jerusalém com Jesus, e vivenciarmos com ele a Páscoa.

Hoje celebramos o chamado Domingo de Ramos, último domingo do tempo quaresmal. Remetemos à entrada do Mestre de Nazaré na capital da fé, da política, da economia e da monarquia: Jerusalém. Jesus é acolhido por muitos como um rei. Frustrou alguns por contradizer suas expectativas, vindo montado em um jumento, talvez esperavam montado em um belo cavalo de guerra… Sem dúvida, o recado não foi compreendido: seu poder era outro, sua arma era o amor e a verdade.

Aclamado entre gritos de “Hosana” e Palmas de Ramos nas mãos por certa multidão, logo mais adiante será aclamado como criminoso, herege, blasfemador.

A primeira leitura, que é a parte do terceiro cântico do “servo de Javé”. Traz-nos a palavra e o drama de um profeta. Apesar do sofrimento e da perseguição, o profeta desta primeira leitura confiou em Deus e concretizou, com teimosa fidelidade, os projetos de Deus. Os primeiros cristãos viram neste “servo de Deus” a figura de Jesus: “Apresentei as costas àqueles que me batiam a face, aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio.” (Isaías 50, 4-7) A certeza de que não está só, mas de que tem a força de Deus, torna o profeta/servo mais forte do que a dor, o sofrimento, a perseguição, o ódio dos inimigos. O profeta/servo tem uma absoluta confiança em Deus; e sabe que Deus nunca o desiludirá.

A segunda leitura trata-se de um antigo hino, provavelmente denominado como pré-paulino, ou seja, as comunidades cristãs já tinham conhecimento antes da chegada de Paulo.  Esse deveria ser recitado nas celebrações litúrgicas cristãs (há quem fale, a propósito deste hino, na catequese primitiva de Simão Pedro, conservada na comunidade cristã de Antioquia da Síria). Lembra aos cristãos de Filipos o exemplo de Cristo, a sua humildade e despojamento.

É um convite a todos os seguidores de Jesus, de todos os tempos, a nos libertarmos do orgulho. Cristo, o Homem Novo, assumiu uma atitude de humildade e obediência diante de Deus (vers. 6-7). Ao longo deste caminho em direção à Páscoa transformamos a arrogância em humildade, a atitude de superioridade em respeito pelo outro, o orgulho em simplicidade, a soberba em delicadeza?

Então chegamos ao Santo Evangelho. A narrativa da Paixão de Jesus. A morte de Jesus tem de ser entendida no contexto daquilo que foi a sua vida! Todos os homens. Jesus chamava a esse mundo novo “o Reino de Deus”. Para concretizar este projeto, Jesus passou pelos caminhos da Palestina “fazendo o bem” e anunciando a proximidade do Reino de Deus. Ensinou que Deus era amor e que não excluía ninguém, nem mesmo os pecadores; ensinou que os leprosos, os paralíticos, os cegos não deviam ser marginalizados, pois, não eram amaldiçoados por Deus; ensinou serem os pobres e os excluídos os preferidos de Deus e aqueles que tinham um coração mais disponível para acolher o “Reino”; e avisou os “ricos” (os poderosos, os prepotentes, os instalados) de que o egoísmo, o orgulho, a autossuficiência e o fechamento só podiam conduzir à morte. Tudo isso o elevou até Jerusalém, o levou até a Cruz. Inconformadas com a denúncia de Jesus: não estavam dispostas a renunciar a esses mecanismos que lhes asseguravam poder, influência, domínio, privilégios; não estavam dispostas a arriscar, a desinstalar-se e a aceitar a conversão proposta por Jesus. A morte de Jesus é a consequência lógica do anúncio do “Reino”: resultou das tensões e resistências que a proposta do “Reino” provocou entre os que dominavam o mundo.

Podemos também dizer que a morte de Jesus é o culminar da sua vida; foi por amor que Jesus lutou contra a injustiça, a prepotência, a opressão, a maldade nas suas mil e uma formas; foi por amor que Jesus se deixou prender, condenar e matar; foi por amor que Jesus morreu na cruz. Quem olha para aquela cruz erguida numa colina fora das muralhas de Jerusalém e vê o testemunho que Jesus deixou, percebe como a vida deve ser vivida. Assim, a cruz encerra e propõe o dinamismo de um mundo novo, de um mundo transformado pelo amor — o dinamismo do “Reino de Deus”. A cruz, instrumento vil de sofrimento e de morte, torna-se assim uma fonte de Vida e de esperança.

Quando o discípulo procura cumprir o projeto de Deus, recusa os valores do mundo, enfrenta as forças da opressão e da morte, recebe a indiferença e o desprezo do mundo e tem de percorrer o seu caminho na mais dramática solidão. O discípulo tem de saber, no entanto, que o caminho da cruz, apesar de difícil, doloroso e solitário, não é um caminho de fracasso e de morte, mas é um caminho de libertação e de vida plena. Por isso, deixo aqui uma questão: alguma vez viramos as costas a Jesus e ao seu projeto, seduzidos por outras propostas?


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São Sebastião / Iguaracy – PE

Os frutos do nosso seguimento ao Mestre

COR LITÚRGICA: ROXO

5º Domingo da Quaresma


Naquele tempo, havia alguns gregos entre os que tinham subido a Jerusalém, para adorar durante a festa. Aproximaram-se de Filipe, que era de Betsaida da Galileia, e disseram: “Senhor, gostaríamos de ver Jesus”. Filipe combinou com André, e os dois foram falar com Jesus. Jesus respondeu-lhes: “Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me quer seguir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará. Agora sinto-me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora?’ Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu nome!” Então veio uma voz do céu: “Eu o glorifiquei e o glorificarei de novo!” A multidão, que aí estava e ouviu, dizia que tinha sido um trovão. Outros afirmavam: “Foi um anjo que falou com ele”. Jesus respondeu e disse: “Essa voz que ouvistes não foi por causa de mim, mas por causa de vós. É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe deste mundo vai ser expulso, e eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a mim”. Jesus falava assim para indicar de que morte iria morrer”. (Jo 12,20-33)

Chegamos ao 5° Domingo da Quaresma. Fizemos um caminho de reflexão profunda, questionamentos e provocações! O caminho do deserto nos preparou até a entrada em Jerusalém, junto ao nosso Mestre. Hoje, nesta liturgia, o ensinamento consiste em nos perguntar: quais são os frutos do nosso seguimento a Jesus?

Logo na primeira leitura, o profeta Jeremias anuncia que Deus está disposto a fazer uma “nova Aliança” conosco. Mas esta não será em papel: “Hei-de imprimir a minha lei no íntimo da sua alma e gravá-la-ei no seu coração.” O que está gravado em nosso coração ao longo de nossas vidas? Será que, de fato, terminaremos esta quaresma com as marcas de Jesus? Seu amor é tão profundo que sua marca em nós não é castigo, mas amor: “Porque eu perdoarei os seus pecados e não me lembrarei mais das suas faltas.”

Essa Nova Aliança anunciada por Jeremias começa a se concretizar em Jesus. Com sua vida, gestos, palavras e amor, Ele veio inscrever em nossos corações as propostas de Deus; e nos deixou o seu Espírito, aquele “sopro de vida” que nos transforma.

Cristo, apesar de ser Filho de Deus, foi um homem que viveu entre os homens e experimentou a fragilidade e a debilidade humanas, como nos mostra a segunda leitura de hoje. Jesus compreendeu as fraquezas e identificou a debilidade de seus irmãos. A partir dessa compreensão, ele se dispôs a agir para remediar isso. Jesus fez de sua vida uma oferta ao Pai, um “sacrifício” ao Pai. Esse “sacrifício” reparou a ruptura causada pelo pecado e restaurou a comunhão entre Deus e os homens, mostrando-lhes o caminho da obediência ao projeto do Pai, Jesus apontou-lhes o caminho que conduz à Vida eterna e verdadeira.

O evangelista João traz à cena “alguns gregos” que “haviam subido a Jerusalém para adorar” e que queriam ver Jesus. Esse “ver” deve ser entendido como “conhecer”, encontrar-se com Jesus. Na cruz de Jesus, portanto, manifesta-se o projeto libertador de Deus para os homens. Toda a vida de Jesus foi como “o grão de trigo lançado à terra”, que morre para dar fruto (vers. 24). Os “gregos” queriam conhecer Jesus. Jesus diz-lhes para olharem para a cruz: é na cruz que Ele se revela totalmente, que Ele mostra o sentido de sua vida, que Ele diz por que viveu e para que viveu.

Estamos verdadeiramente decididos a conhecer Jesus, a abraçar suas propostas? Jesus rejeita absolutamente o caminho da autossuficiência, do fechamento em si próprio, do egoísmo estéril. O ideal, em nosso mundo, é eu me dar bem, fugindo de qualquer sacrifício ou sofrimento, pouco me importando com o sofrimento dos outros.

Então nos perguntemos: o fruto de nossa vida está sendo lançado à terra, ou está sendo guardado para se conservar e se perder?


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São Sebastião / Iguaracy – PE

Domingo “Laetare”: a alegria da Páscoa que se aproxima

COR LITÚRGICA: ROXO

4º Domingo da Quaresma


Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna. Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê, não é condenado, mas, quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito. Ora, o julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações eram más. Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas. Mas, quem age conforme a verdade, aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus. (Jo 3,14-21)

Desde cedo, em casa, aprendemos que a quaresma não é tempo de brincadeiras, de festas, músicas extrovertidas… mas tempo de penitência, abstinência e autorreflexão para mudanças internas e externas. Mas que interessante termos o quarto domingo do tempo da quaresma chamado de “laetare”, traduzido do latim: “Alegra-te”!

A própria antífona da entrada da Santa Missa dá o tom que celebramos: “Laetare, Jerusalém”, ou em português: “Alegra-te, Jerusalém!”. Podemos nos perguntar: qual a razão dessa alegria toda? É que estamos recebendo uma boa notícia. A celebração litúrgica neste domingo é profundamente marcada pelo tema: ação de Deus para nos libertar.

A primeira leitura da liturgia de hoje é retirada do livro das Crônicas(2Cr 36), e narra que os exilados da Babilônia foram autorizados a voltar para sua terra, a regressarem a Israel e reconstruírem o Templo de Deus e também suas vidas, em aliança com Deus. Nada como voltar para casa, com aqueles que amamos, deixar a tristeza e a solidão para trás. Deus nunca desiste dos seus filhos: Ele dá-lhes sempre a possibilidade de reconstruir a vida, de começar de novo.

Temos ou não, motivos para nos alegrar?

Na segunda leitura, retirada da carta aos Efésios 2, 4-10, retomamos esse esforço contínuo de Deus em nos libertar: “Quando estávamos mortos devido a nossas faltas, Deus nos deu a vida com Cristo’. Que boa notícia! ‘Deus nos ressuscitou com Cristo!’” Que ótima notícia!!!

Ainda não está convencido? Pois me deixe lhe dizer algo, Deus é rico em misericórdia e ama os seus filhos e filhas com um amor imenso.

Por isso, à nossa situação pecadora, Deus responde com a sua graça (vers. 4). Veja, a Graça, e não o castigo. O amor salvador e libertador de Deus não é um amor condicional, que só se derrama sobre os homens se e quando eles se convertem; mas é um amor incondicional, que atinge os seres humanos mesmo quando eles continuam a percorrer caminhos de pecado e de morte (vers. 5). É o seu amor que nos alcança.

Aos homens, orgulhosos e autossuficientes, instalados no egoísmo e no pecado, Deus ofereceu, por meio de Cristo, uma nova vida. Tornados membros de Cristo, eles ressuscitaram com Cristo e sentaram-se com Ele nos céus (vers. 6).

A salvação é uma oferta gratuita que Deus faz aos seus filhos e filhas, mesmo que eles a não mereçam (vers. 9). Da oferta de salvação que Deus nos faz, deve nascer uma nova humanidade, que pratica boas obras. As boas obras não são a condição para se receber a salvação, mas o resultado da ação dessa graça que Deus, no seu amor e na sua bondade, derrama gratuitamente sobre nós (vers. 10).

Já o Evangelho deste domingo convida-nos a contemplar, com João, esta incrível história de amor e a espantar-nos com o peso que nós, seres limitados e finitos, adquirimos nos esquemas, nos projetos e no coração de Deus. João é o evangelista abismado na contemplação do amor de um Deus que não hesitou em enviar ao mundo o seu Filho, o seu único Filho, para apresentar aos homens uma proposta definitiva de aliança e amor.

Qual é o objetivo de Deus ao enviar o seu Filho único ao encontro dos homens? É libertá-los do egoísmo, da escravidão, da alienação, da morte e dar-lhes a Vida eterna. Foi o amor de Jesus – bem como o Espírito que Jesus deixou – que transformou esses homens egoístas, orgulhosos, autossuficientes e os inseriu num dinamismo de vida nova e plena.

Agora, quem vai ser levantado é o Filho do Homem, Jesus. Quem nele crer, será liberto do pecado e da morte, terá a vida eterna. Depois de um longo exílio devido ao pecado, desde Adão, uma boa notícia para a humanidade: Deus enviou seu filho único para a nossa salvação.

Diante da oferta de salvação que Deus faz, a pessoa tem de fazer a sua escolha. Quando aceita a proposta de Jesus e adere a Ele, escolhe a vida definitiva; mas quando prefere continuar escrava de esquemas de egoísmo e de autossuficiência, rejeita a proposta de Deus e autoexclui-se da salvação. A salvação ou a condenação não são, nesta perspectiva, um prêmio ou um castigo que Deus dá à pessoa pelo seu bom ou mau comportamento; mas são o resultado da escolha livre da pessoa.

Portanto, em toda liturgia, o foco está na alegria deste conhecimento do amor de Deus por nós. E por isso não podemos viver de medo, ou com medo. Mas de uma alegria, que supera as outras passageiras.

O cristão não vive no medo, pois ele sabe que Deus é esse Pai cheio de amor que oferece a todos os seus filhos a vida eterna. Não é Deus que nos condena; somos nós que escolhemos entre a vida eterna que Deus nos oferece ou a eterna infelicidade. Podemos resumir em três aspectos essa alegria ressaltada hoje: voltar para casa, reconstruir a vida em aliança com Deus (2Cr). Praticar as boas obras (Ef 2). Crer em Cristo (Jo 3).


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São Sebastião / Iguaracy – PE


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Senhor, tens palavras de vida eterna

COR LITÚRGICA: ROXO

3º Domingo da Quaresma


Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados. Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. E disse aos que vendiam pombas: “Tirai isso daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!”. Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: “O zelo por tua casa me consumirá”. Então os judeus perguntaram a Jesus: “Que sinal nos mostras para agir assim?” Ele respondeu: “Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei”. Os judeus disseram: “Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?” Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo. Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra dele. Jesus estava em Jerusalém durante a festa da Páscoa. Vendo os sinais que realizava, muitos creram no seu nome. Mas Jesus não lhes dava crédito, pois ele conhecia a todos; e não precisava do testemunho de ninguém acerca do ser humano, porque ele conhecia o homem por dentro. (Jo 2,13-25)

Irmãs e irmãos, para este terceiro domingo da Quaresma, a liturgia nos apresenta leituras que indicam como Deus se preocupa em nos conduzir por caminhos que nos levem a uma vida feliz.

Vejamos! Diferente do que a maioria das pessoas pensam, o Decálogo, ou seja, os mandamentos, as leis de Deus, não são meros instrumentos para limitar nossa ação, mas são direcionamentos que nos levam a uma vida livre de maiores aflições. São conselhos que nos impedem de fazer o mal e nos apelam a fazer o bem. Porque só quem ama realmente importa em formar bem, em orientar. Isso não nos retira a liberdade, porém nos apresenta as consequências de más escolhas. Vale ainda ressaltar que o decálogo traz os dois vetores fundamentais da existência humana: a relação da pessoa com Deus e a relação que cada pessoa estabelece com o seu próximo.

No entanto, nem sempre Deus tem lugar determinante na vida dos homens e mulheres do nosso tempo… Para muitos dos nossos contemporâneos, Deus é uma realidade que os deixa indiferente. Não aquece nem arrefece; não conta para nada. O que os move é o dinheiro, o poder, os afetos humanos, a realização profissional, o reconhecimento social, os projetos pessoais, as ideologias, os valores da moda, as coisas materiais que tornam a vida mais cômoda e mais fácil. Esta opção, no entanto, mais cedo ou mais tarde, vai trazer vazio, insatisfação, frustração e desencanto.

“Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração, os mandamentos do Senhor são claros e iluminam os olhos.”

O salmo (18) nesta liturgia vai ressaltar o grande valor dos mandamentos na vida de quem crer. Viver os mandamentos é abdicar muitas vezes da própria vontade para fazer a vontade de Deus, como Jesus! Por isso, na segunda leitura, Paulo nos apresenta este discurso sobre a cruz. A cruz era o instrumento de suplício para os últimos da sociedade, para os cidadãos sem direitos e sem dignidade. Causava horror e significava infâmia. Mas Paulo vê na cruz onde Cristo foi morto a manifestação, humanamente desconcertante, mas absoluta e categórica, da força salvadora de Deus.

Na cruz manifestou-se a força de um Deus que salva pelo amor. O homem que olha para a cruz de Jesus percebe a lição do amor até ao extremo e dispõe-se a seguir o caminho de Jesus, encontra a verdadeira sabedoria, a sabedoria proposta por Deus. Isso nos cabe uma boa pergunta: Segundo Paulo, a força e a sabedoria de Deus manifestam-se na fragilidade, na pequenez, na pobreza, na humildade, na vida entregue por amor… Sendo assim, não nos parecem ridículas, descabidas e pretensiosas as nossas poses de importância, de autoridade, de protagonismo, de êxito humano, que tantas vezes magoam e humilham os irmãos e irmãs com quem nos cruzamos? (Pausa para pensar e orar)

O Evangelho deste terceiro domingo da Quaresma integra a seção introdutória do Evangelho de João (cf. Jo 1,19-3,36). É nessa seção que João nos apresenta Jesus e as grandes linhas programáticas do seu ministério. Vale ressaltar que antes mesmo dessa atitude de Jesus, a literatura profética já denunciava a prática ritual sacrifical do Templo de Jerusalém, ritos estéreis, sem significado, uma vez que não eram expressão verdadeira de amor a Javé; tinham, inclusive, denunciado a relação do culto com a injustiça e a exploração dos pobres (cf. Am 4,4-5; 5,21-25. Os 5,6-7; 8,13; Is 1,11-17; Jr 7,21-26). Mas o que desejo ressaltar neste Evangelho é o “zelo” de Jesus pela casa do Pai, pelas coisas sagradas. A começar pela íntima relação que ele mesmo fez entre o templo de Jerusalém e seu próprio corpo. Pois, desse modo, Jesus recupera a visão de sacralidade do corpo, da vida, da humanidade.

Muitas vezes gastamos muita energia com um zelo exterior, nas aparências, em objetos, e nos esquecemos do zelo com o templo de nosso coração, onde Ele quer habitar. Talvez este templo já esteja cheio de deuses contemporâneos: mídias sociais, dinheiro, fama… ou talvez esteja com mercadorias injustas, seguindo o fluxo do mercado, que cada dia traz suas novas necessidades supérfluas. Pelo que estamos tendo zelo? O que tem nos consumidos? Qual é o verdadeiro culto que Deus espera?

Evidentemente, não são os ritos solenes e pomposos, mas vazios, estéreis… O culto que Deus aprecia é uma vida vivida na escuta das suas propostas e traduzida em gestos concretos de doação, de entrega, de serviço simples e humilde aos irmãos. Quando somos capazes de sair do nosso comodismo e da nossa autossuficiência para ir ao encontro do pobre, do marginalizado, do estrangeiro, do doente, estamos a dar a resposta “litúrgica” adequada ao amor e à generosidade de Deus para conosco.

Como aqueles vendedores e cambistas que transformaram o Templo de Deus numa casa de comércio, também nós podemos, quase sem nos darmos conta, estar a converter toda a nossa vida num negócio, onde tudo é pesado em favor do nosso interesse e do nosso ganho. Até a nossa relação com Deus pode tornar-se uma troca comercial, em que cumprimos os ritos para termos Deus a nosso favor.


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São Sebastião / Iguaracy – PE


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“Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!”

COR LITÚRGICA: ROXO
2º Domingo da Quaresma


Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte sobre uma alta montanha. E transfigurou-se diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar. Apareceram-lhe Elias e Moisés, e estavam conversando com Jesus. Então Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro não sabia o que dizer, pois estavam todos com muito medo. Então desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!” E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles. Ao descerem da montanha, Jesus ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos. Eles observaram essa ordem, mas comentavam entre si o que queria dizer “ressuscitar dos mortos”. (Mc 9,2-10)

Neste segundo domingo da Quaresma, a Palavra de Deus convida-nos a dar mais um passo em direção à Páscoa (a de Jesus e a nossa).

Devemos recordar que o tempo quaresmal é uma preparação que nos encaminha para a verdadeira e maior festa: a Páscoa. Neste domingo lemos a passagem da grande prova de fé Abraão, com o oferecimento de Isac seu Filho.

Javé queria testar a fidelidade e a confiança de Abraão. Mas é em Cristo que este sacrifício acontece, e com Cristo que essa obediência se materializa. É Jesus que carregará o verdadeiro madeiro nas costas em expiação dos pecados de outros (nós) e é o próprio Deus que oferece seu único Filho e aceita seu sacrifício voluntário para nos redimir. Na segunda leitura, se dirige aos crentes, dizendo que Deus nos ama com um amor imenso e eterno.

A melhor prova desse amor é Jesus Cristo, o Filho amado de Deus, que morreu para ensinar ao homem o caminho da vida verdadeira. O Evangelho relata a transfiguração de Jesus. Ele revela a alguns discípulos sua face divina.

Gostaria de focar alguns aspectos, que podem passar despercebidos. E aproveitá-los para sair do mesmismo que somos tentados a cair em nossas reflexões. Prefiro nos lançar em um risco… uma nova abordagem. Vejam, Jesus é rodeado de pessoas, mas escolhe apenas três nessa cena. Assim como eu e você não levamos toda ou qualquer pessoa para conhecer nossa intimidade, nossa privacidade, Jesus escolheu aqueles com quem tinha mais intimidade, com quem tinha mais amizade, confiança… eles tinham de fato um vínculo especial com o Mestre. Por que isso é importante para nós hoje? Para nós questionarmos se temos também essa proximidade com o mestre, se nosso nível de amizade com Ele permite levarmos ao “quarto de nossa bagunça”. Se somos tão amigos de Jesus, a ponto de mostrarmos a ele quem realmente somos! Sim, porque a nós Ele já se revelou…

Um segundo ponto de que é oportuno falarmos é a dúvida dos discípulos sobre a ressurreição. Eles não entendiam muito bem naquele momento, se questionavam. Não somos diferentes, ainda podemos ter questões, medos, inseguranças… assim como eles, mas eles, apesar de não entenderem, permaneceram seguindo Jesus, e você? E nós? Seremos que, mesmo sem entender tudo perfeitamente, continuamos a seguir o mestre? Vamos pensar sobre essas coisas… Boa reflexão.


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São Sebastião / Iguaracy – PE

Uma aliança de amor: uma nova humildade

COR LITÚRGICA: ROXO

1º Domingo da Quaresma


Naquele tempo, o Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam. Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” (Mc 1,12-15)

Meus queridos irmãos e irmãs, neste primeiro Domingo da Quaresma a liturgia nos mostra que Deus nunca desiste de recriar o nosso mundo, e é isso que a primeira leitura nos apresenta com a história de Noé. Tantas vezes ferido pelo egoísmo e pela maldade dos homens, o mundo é retirado do plano original de Deus. Portanto, a narrativa da arca da aliança nos desafia a colaborar com Deus na construção de um mundo novo.

O Evangelho revela mais uma vez que Deus toma novamente a iniciativa e repropõe sua aliança com a humanidade por e com Jesus. Ele é guiado pelo Espírito Santo para o deserto, lugar onde não existe nada. Diferente do Espírito Maligno que nos oferece tudo, nos enche de necessidades supérfluas e nos retira do essencial. Jesus recusa o mal e opta pelo caminho indicado pelo Pai,  caminho que começa no esvaziamento do deserto. Essa opção está na origem de um mundo novo, ao qual Jesus chamava “o Reino de Deus”.

Por essa razão que, na segunda leitura, o autor da primeira Carta de Pedro recorda que pelo Batismo, os cristãos comprometem-se, portanto, a seguir Jesus no caminho do amor, do serviço a vida. Envolvidos nesse dinamismo de vida e de salvação que brota de Jesus, os cristãos são semente de uma nova humanidade, assim como foi Noé e sua família, Jesus agora faz isso plenamente e definitivamente.

Finalizo deixando três questões para provocar a sua reflexão:
1) Como temos mantido nossa aliança pessoal com o Senhor?
2) Meu Batismo tem manifestado essa aliança e gerado um aspecto de um homem/mulher novo/a que cria um mundo melhor?
3) Tenho sido guiado pelo Espírito Santo, que me mostra o essencial da vida, ou tenho sido guiado pelo Espírito Maligno, que me envolve com coisas desnecessárias?


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São Sebastião / Iguaracy – PE


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Ouça a reflexão: