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Jesus, cheio de compaixão

COR LITÚRGICA: VERDE

6º Domingo do Tempo Comum


Naquele tempo, um leproso chegou perto de Jesus e, de joelhos, pediu: “Se queres, tens o poder de curar-me”. Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse: “Eu quero: fica curado!”. No mesmo instante a lepra desapareceu e ele ficou curado. Então Jesus o mandou logo embora, falando com firmeza: “Não contes nada disso a ninguém! Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o que Moisés ordenou, como prova para eles!” Ele foi e começou a contar e a divulgar muito o fato. Por isso Jesus não podia mais entrar publicamente numa cidade; ficava fora, em lugares desertos. E de toda parte vinham procurá-lo. (Mc 1,40-45)

Irmãos e irmãs, em nossa reflexão neste 6º domingo do Tempo Comum, se aproximando mais um tempo de preparação que é a Quaresma, nos é apresentado o Evangelho segundo Marcos (1,40-45).

A lepra

Tanto na primeira leitura, quanto no Evangelho, ouvimos narrativas que tratam sobre pessoas leprosas. Uma doença que naquele período levava a morte facilmente, pois não havia tratamento, medicamentos que obtivessem a cura, portanto ficar livre desse mal era de fato um ato milagroso. Essa doença se ampliava para fora do corpo do enfermo. Sim, ela atingia o social, o religioso, o psicológico… pessoas acometidas pela lepra eram banidas do convívio social, pois eram consideradas impuras/pecadoras por sofrerem tamanho mal, e por isso sofriam também psicologicamente pela solidão e culpa.

O segredo messiânico

“Então Jesus o mandou logo embora, falando com firmeza: ‘Não contes nada disso a ninguém!”

Hoje estranhamos essa atitude de Jesus em não querer que se espalhe a notícia de tamanho ato de bondade. Mas, porquê? Primeiramente Jesus não quer ser confundido com um curandeiro, um mago, ou profissional. Sim, naquele período era muito comum esse tipo de profissão. Depois, em consequência disso, essa não era sua principal atividade messiânica, Ele não veio simplesmente para resolver problemas particulares, mas os fazia para que as pessoas acreditassem, seus milagres eram uma forma de acréscimo ao anúncio da boa nova, mas não era o principal.

Diariamente, somos tentados midiaticamente a inverter essa lógica de Jesus, queremos que fatos milagrosos sejam o principal, queremos criar, ver, divulgar, como uma maneira de agregar, de convencer, quando na verdade é pelo testemunho de vida que Jesus anuncia a boa notícia, e nos pede o mesmo. É mais eficaz.

Oferece, pela tua purificação, o que Moisés ordenou

Essa ordem de Jesus ao homem curado é uma maneira de endossar de onde vem a cura: de Deus! Hoje, parece-me que muita gente se apossa da cura, fazendo de si mesmo um Deus. E aqui retomo as palavras de São Paulo: “fazei tudo para a glória de Deus.” ( I Coríntios 10,31). Às vezes, queremos fazer para nossa própria glória…

Jesus é cheio de compaixão, Ele entende e sente o sofrimento daquele homem, é a compaixão que faz aquele homem ser curado. Talvez o que esteja faltando mais em nossa vida seja essa compaixão que Jesus teve: “estendeu a mão, tocou nele, e disse: ‘Eu quero: fica curado!'”

Estendamos nossa mão e toquemos àqueles que sofrem.


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São José / São José do Belmonte

Vamos a outros lugares

COR LITÚRGICA: VERDE

5º Domingo do Tempo Comum


Naquele tempo, Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, para a casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama, com febre, e eles logo contaram a Jesus. E ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se. Então, a febre desapareceu; e ela começou a servi-los. À tarde, depois do pôr do sol, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio. A cidade inteira se reuniu em frente da casa. Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios. E não deixava que os demônios falassem, pois sabiam quem ele era.  De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto. Simão e seus companheiros foram à procura de Jesus. Quando o encontraram, disseram: “Todos estão te procurando”. Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim”. E andava por toda a Galileia, pregando em suas sinagogas e expulsando os demônios. (Mc 1,29-39)

Caríssimos leitores, irmãos e irmãs, neste quinto Domingo do Tempo Comum, temos o trecho do Evangelho segundo Marcos (1,29-39). Jesus toma dois de seus amigos após a reunião religiosa na sinagoga e vai fazer uma visita a outros dois amigos. Uma cena que poderíamos enquadrar como algo “comum”, porque amigos se visitam.

Jesus é também um homem religioso, Ele frequenta a Sinagoga, Ele ler e tem conhecimento da lei mosaico, Ele cumpre as obrigações do judaísmo.

Ao se deslocar para a casa de Simão e André, aonde também encontraria a sogra de Simão (sem nome), acontece um outro gesto, eles (Simão e André) contam a Jesus que a mulher estava de cama, doente. O que vemos aqui? Vemos que eles confiam em Jesus, eles sabem do que é capaz, e também mostram que se importam com a mulher, querem vê-la bem. Sem dúvida, Jesus percebe esses sinais e por isso dar-lhes atenção.

Jesus ajuda aquela mulher, ela também permite ser ajudada, ela aceita a mão estendida que quer lhe erguer, caso contrário continuaria deitada, mergulhada em sua enfermidade. Contextualizando para nós hoje, será que aceitamos as diversas mãos estendidas que Deus nos oferece, por meio de pessoas que nos amam, que se preocupam conosco, que querem nos ver de pé? … ou rejeitamos e nos voltamos para nossas fragilidades, continuando prostrados?… Aquela mulher, levanta-se e serve. Jesus não pediu nada, não cobrou nada, não disse nada, mas ela sentiu, percebeu que poderia fazer alguma coisa. E nós, o que fazemos depois de sermos levantados?

‘Todos estão te procurando’
Quem seriam estes “todos”? Na casa poderiam ter mais algumas pessoas, é familiar. Contudo, Jesus percebe que não é essa sua missão, ajudar simplesmente os amigos, os familiares, mas vai muito além disso. Por isso Ele responde: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim’.”

Ir além das nossas fronteiras existenciais. Paulo entendeu bem essa inquietude de Jesus, como lemos também na segunda leitura de hoje: “Pregar o evangelho não é para mim motivo de glória. É antes uma necessidade para mim, uma imposição. Ai de mim se eu não pregar o evangelho!” (I Cor 9,16). Não podemos limitar o anúncio do Evangelho a celebração litúrgica da missa, nem aos encontros de nossos grupos e pastorais, mas essa boa notícia deve estar em todas as situações de minha existência, no meu dia a dia, devendo ser facilmente reconhecida por minhas atitudes.

Como nos ensina Paulo sobre a amplitude, a universalidade do anúncio: “Com todos, eu me fiz tudo, para certamente salvar alguns. Por causa do evangelho eu faço tudo, para ter parte nele.” Para que terminado nossa jornada sobre essa terra, não nos queixemos por não ter vivenciado algo que realmente valesse, “Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra?” (Jó 7,1) Sim, é uma luta, mas nós escolhemos pelo que lutar e com o que lutar. Vamos a outros lugares.


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São José / São José do Belmonte

Do vosso meio surgirá um profeta!

COR LITÚRGICA: VERDE

4º Domingo do Tempo Comum


Na cidade de Cafarnaum, num dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei.  Estava então na sinagoga um homem possuído por um espírito mau. Ele gritou: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus”. Jesus o intimou: “Cala-te e sai dele!” Então o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu. E todos ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: “O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!” E a fama de Jesus logo se espalhou por toda a parte, em toda a região da Galileia. (Mc 1,21-28)

Meus amigos e amigas, caros leitores desta coluna. Vivenciamos o quarto domingo do tempo comum, e nesta liturgia iremos celebrar a realização da promessa de Deus, feita a Moisés para seu povo: “O Senhor teu Deus fará surgir para ti, da tua nação e do meio de teus irmãos, um profeta como eu” ( Dt 18,15).

Na interpretação exegética essa palavra é realizada plenamente em Jesus, pois é Ele que cumpre totalmente a vontade do Pai em palavras e ações. Entretanto, quero destacar nessa primeira leitura que ouvimos (Dt 18, 15-20) a razão pela qual Moisés subiu ao monte, por que Moisés pediu que viesse um outro profeta… a questão é, o povo não queria mais ouvir: “todo o povo estava reunido, dizendo: “Não quero mais escutar a voz do Senhor meu Deus” (Dt 18,17). Tudo bem, o Senhor não força ninguém a ouvi-lo, mas então se pergunte: a quem eles escutarão? Por isso Deus se preocupa em enviar outro, na verdade, o Senhor envia sempre.

Diante dessa história verotestamentaria, eu fiquei me questionando: ainda rejeitamos o que Deus nos ensina, ainda fechamos os ouvidos para sua voz, ainda nos iludimos com outras palavras… Mesmo vindo aquele que é a própria Palavra. Acredito que a grande problemática de ontem e de hoje, é à “vontade”. Temos vontade de ouvir a voz do Senhor, e de seguir? Talvez para muitos é mais conveniente ouvir a si próprio, realizar suas próprias vontades. Assim, não tem compromisso com nada, nem ninguém, só consigo. Tudo isso é reflexo do tempo que vivemos. Mas, continuamos no apelo do salmo de hoje: “Não fecheis o coração, ouvi, hoje, a voz de Deus!” (Sl 94, 8). Pois como disse Paulo, outra importante voz: “Digo isto para o vosso próprio bem e não para vos armar um laço. O que eu desejo é levar-vos ao que é melhor.” (Cor 7,34-35).

Ao mesmo tempo que anunciamos, que proclamamos a boa notícia, que denunciamos as mentiras e injustiças do mundo, também não podemos forçar, obrigar a ninguém a acolher e realizar essa palavra, por mais que seja para o melhor.

No Evangelho, observamos que a fama de Jesus cresce. Todos se admiram com os ensinamentos de Jesus. A cena no Evangelho se passa dentro da Sinagoga, lugar de encontro e oração comunitária dos judeus, lugar puro e santo. Então se pergunte: como pode dentro da Sinagoga, existir, habitar, um homem possuído, endemoninhado? Percebeu esse problema?! Pois bem, isso é para nos balançar mesmo. Porque tantas vezes também hoje, podemos até mesmo de nossa comunidade de fé, está sendo instrumento do maligno. Isso mesmo! Cumprindo todos os preceitos, realizando todas as tarefas, mas mesmo assim, podemos está sendo hospedeiros do mal no nosso interior. O que diz o homem possuído é bem interessante: “Que queres de nós, Jesus Nazareno?

Vieste para nos destruir?” O mal teme sua desarticulação. Que se destrua suas estruturas manipuladoras que dominam pelo medo, pela culpa, pela tristeza, pelo apego, pela vaidade, pela ambição, pela mentira. Já se perguntou, se em sua comunidade você é instrumento do maligno? Ou se algum momento foi? Se em sua intimidade habita algum espírito mal que causa mal a si e aos demais? Bem, eu sei que todas as vezes que a palavra de Deus me constrange, me pesa, eu sinto que de algum modo algum mal também sai de mim… porque é assim que a Palavra de Deus age. Ela anima, sustenta, mas ela também repele o mal.


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São José / São José do Belmonte

O tempo está abreviado

COR LITÚRGICA: VERDE

3º Domingo do Tempo Comum


Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” E, passando à beira do mar da Galileia, Jesus viu Simão e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus lhes disse: “Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens”. E eles, deixando imediatamente as redes, seguiram a Jesus. Caminhando mais um pouco, viu também Tiago e João, filhos de Zebedeu. Estavam na barca, consertando as redes; e logo os chamou. Eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados, e partiram, seguindo Jesus. (Mc 1,14-20)

Caríssimos leitores, irmãos e irmãs, quantas vezes nos questionamos sobre a rapidez do tempo… quando nos damos conta, passou! Por isso não podemos ficar adiando os planos, os sonhos e, principalmente, a nossa conversão.

Jesus passa sempre a beira-mar, imagem perfeita da vida. Um lugar de certa acomodação e segurança. Passando ele lança um convite: “Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens”. O mestre nos chama a sairmos de acomodação e atraírmos a outros para essa mesma tarefa, assim um vai levando o outro a lançar-se ao mar – mesmo com seus desafios.

O mar é a imagem própria das adversidades. É o símbolo da vida, com seus altos e baixos, suas tempestades, mas também suas conquistas com o fruto do trabalho e do esforço.

O Reino de Deus chegou, o tempo se completou e o mestre nos diz que é necessário entrar em alto mar para recolher os frutos desse reino, é necessário enfrentar as dificuldades próprias da evangelização, que ficando na “margem” não conseguiremos pescar homens, é necessário aprofundar-nos no seguimento e no testemunho.

Será que ainda estamos as margens do Evangelho, ou já entramos em alto mar?


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São José / São José do Belmonte

Segue-me!

COR LITÚRGICA: VERDE

2º Domingo do Tempo Comum


Naquele tempo, João estava de novo com dois de seus discípulos e, vendo Jesus passar, disse: “Eis o Cordeiro de Deus!” Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus. Voltando-se para eles e vendo que o estavam seguindo, Jesus perguntou: “O que estais procurando?” Eles disseram: “Rabi (que quer dizer: Mestre), onde moras?” Jesus respondeu: “Vinde ver”. Foram pois ver onde ele morava e, nesse dia, permaneceram com ele. Era por volta das quatro da tarde. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram a palavra de João e seguiram Jesus. Ele foi encontrar primeiro seu irmão Simão e lhe disse: “Encontramos o Messias” (que quer dizer: Cristo). Então André conduziu Simão a Jesus. Jesus olhou bem para ele e disse: “Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas” (que quer dizer: Pedra). (Jo 1,35-42)

Caríssimos leitores, irmãos e irmãs. O tema central da liturgia neste domingo é o chamado de Deus a humanidade. O evangelho deste domingo descreve-nos o encontro de Jesus com os seus primeiros discípulos e esboça o caminho que o discípulo deve percorrer depois desse primeiro encontro: deve ir atrás de Jesus, estabelecer contato com Ele, perceber que Ele é fonte de vida verdadeira, aceitar viver em comunhão com Ele, tornar-se testemunha Dele junto dos outros irmãos.

Em toda liturgia deste domingo, ficará explicito que o chamamento é sempre uma iniciativa de Deus: é Ele que vem ao encontro do homem, chama-o pelo nome, desafia-o a ser sinal e testemunho do projeto de Deus no mundo. Foi assim que ouvimos também na primeira leitura retirada do primeiro livro de Samuel. Já na carta de Paulo que hoje nos foi apresentado (1 cor 6, 13-20) fala do corpo, sim, por que somos chamados como um todo, e não por pedaços. Pelo Batismo, o cristão torna-se membro de Cristo e forma com ele um único corpo.

A partir desse momento, os pensamentos, as palavras, as atitudes do cristão devem ser os de Cristo e devem testemunhar, diante do mundo, o próprio Cristo. No “corpo” do cristão manifesta-se, portanto, a realidade do “corpo” de Cristo.

‘Seguir’ significa caminhar atrás de Jesus, percorrer o mesmo caminho de amor e de entrega que Ele percorreu, adotar os mesmos objetivos de Jesus e colaborar com Ele na missão. A reação dos discípulos é imediata. Não há aqui lugar para dúvidas, para desculpas, para considerações que protelem a decisão, para pedidos de explicação, para procura de garantias… Eles, simplesmente, “seguem” Jesus.

Os discípulos aceitam o convite e fazem a experiência da partilha da vida com Jesus. Essa experiência direta convence-os a ficar com Jesus (“ficaram com Ele nesse dia”). Nasce, assim, a comunidade do Messias, a comunidade da nova aliança.

É a comunidade daqueles que encontram Jesus que passa, procuram n’Ele a verdadeira vida e a verdadeira liberdade, identificam-se com Ele, aceitam segui-Lo no caminho que Ele apontar, estão dispostos a uma vida de total comunhão com Ele. Os discípulos tornam-se testemunhas. Trata-se de uma experiência tão marcante que transborda os limites estreitos do próprio eu e se torna anúncio libertador para os irmãos. O encontro com Jesus, se é verdadeiro, conduz sempre a uma dinâmica missionária.


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São José / São José do Belmonte

Vimos o seu sinal, e viemos adorá-Lo

COR LITÚRGICA: BRANCO

Epifania do Senhor – Solenidade | Domingo


Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, perguntando: “Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”. Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém. Reunindo todos os sumos sacerdotes e os mestres da Lei, perguntava-lhes onde o Messias deveria nascer. Eles responderam: “Em Belém, na Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo”. Então Herodes chamou em segredo os magos e procurou saber deles cuidadosamente quando a estrela tinha aparecido. Depois os enviou a Belém, dizendo: “Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E, quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo”. Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino. Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande. Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra.  Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho. (Mt 2,1-12)

Caríssimos leitores, irmãos e irmãs, neste Domingo ainda no ciclo da liturgia do tempo de Natal, celebramos a solenidade da EPIFANIA DO SENHOR, ou seja, de sua manifestação ao mundo. O Menino Jesus no presépio é uma “luz” que se acende na noite do mundo e atrai a si todos os povos da terra. Revelando em sua fragilidade a grandeza e o poder de Deus, essa manifestação contradiz e contrapõe o espetáculo superficial do mundo.

A chegada destes homens vindos de partes diferentes do mundo, de povos e culturas distintas, aponta que esse menino será o eixo cardeal da unidade na humanidade: todos se voltaram para Ele. Percebam que a expressão “unidade” na verdade fala de partes diferentes, que se juntam. Jesus vem para unir os diferentes em seu amor, em sua presença. Diferente de “unicidade”, onde deixa de ser outro para ser o mesmo, sem particularidade, sem identidade, sem originalidade, sem diversidade.

Atentos aos sinais da chegada do Messias, esses “magos” procuram-n’O com esperança até O encontrar, reconhecem n’Ele a “salvação de Deus” e aceitam-n’O como “o Senhor”. A salvação rejeitada pelos habitantes de Jerusalém torna-se agora um dom que Deus oferece a todos os homens, sem exceção.

O relato de Mateus faz uma referência ao rei que governava a Palestina na altura do nascimento de Jesus: Herodes, chamado “o Grande”, falecido no ano 4 a.C., cerca de dois anos após o nascimento de Jesus. Embora se tenha distinguido pelas grandes obras que levou a cabo, foi um rei cruel e despótico, sempre pronto a matar para defender o seu trono. Um grande e poderoso rei, que foi vencido pelo medo de perder seu trono para uma frágil criança.

Estes distintos personagens assumem atitudes diversas, que vão desde a adoração (os “magos”), até à rejeição total (Herodes), passando pela indiferença (os sacerdotes e os escribas: nenhum deles se preocupou em ir ao encontro desse Messias que eles conheciam bem dos textos sagrados). Com qual destes grupos nos identificamos? Será possível sermos “cristãos praticantes”, andarmos envolvidos nas atividades da comunidade cristã e, simultaneamente, passarmos ao lado das propostas de Jesus? Nós, os que conhecemos as Escrituras, levámo-las a sério quando elas nos desafiam à conversão, ao compromisso, à opção clara pelos valores do Evangelho?

Hoje Jesus quer manifestar-se ao mundo em nós.


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São José / São José do Belmonte

E sua família, como vai?

COR LITÚRGICA: BRANCO

Sagrada Família: Jesus, Maria e José – Festa | Domingo


Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor.  Conforme está escrito na Lei do Senhor: “Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor”. Foram também oferecer o sacrifício — um par de rolas ou dois pombinhos — como está ordenado na Lei do Senhor. Em Jerusalém, havia um homem chamado Simeão, o qual era justo e piedoso, e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor. Movido pelo Espírito, Simeão foi ao Templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir o que a Lei ordenava, Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz; porque meu olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel”. O pai e a mãe de Jesus estavam admirados com o que diziam a respeito dele. Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma”. Havia também uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada; quando jovem, tinha sido casada e vivera sete anos com o marido. Depois ficara viúva, e agora já estava com oitenta e quatro anos. Não saía do Templo, dia e noite servindo a Deus com jejuns e orações. Ana chegou nesse momento e pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. Depois de cumprirem tudo, conforme a Lei do Senhor, voltaram à Galileia, para Nazaré, sua cidade. O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele. (Lc 2,22-40)

Amados irmãos, leitores, amigos, chegamos ao término do ano de 2023. Ano de muitas mudanças, de muitas esperanças e aprendizados. Neste último domingo do ano, a Igreja nos propõe a liturgia que celebra a festa da Sagrada Família. Deus que se fez em um menino frágil e se apresentou aos homens, no presépio de Belém, e encontrou abrigo numa família humana, a família de José e de Maria, dois jovens pobres esposos de Nazaré.

“Deus quis honrar os pais nos filhos”

Na primeira leitura, livro do Eclesiástico, ou, Ben-Sirá (3,3-7.14-17a.) uma série de indicações práticas que os filhos devem ter em conta nas relações com os pais. Repete-se cinco vezes, nestes poucos versículos a palavra “honrar”. O que é que significa, exatamente, “honrar os pais”? expressão leva-nos ao Decálogo do Sinai (“honra teu pai e tua mãe” – Ex 20,12). Que significa literalmente “dar peso/importância”.

É imprescindível reconhecer que os pais são os instrumentos através dos quais Deus concede a vida e deve conduzir os filhos à gratidão; Sentimo-nos gratos aos nossos pais por eles terem aceitado colaborar com Deus, dando-nos vida e cuidando de nós ao longo do caminho que temos vindo a percorrer? Lembramo-nos de lhes demonstrar, com ternura e amor, a nossa gratidão? Mas, também os pais, já nutrem isso em seus filhos?

Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição

O que une duas pessoas apriore? O amor. Mas geralmente pensamos nos amores fantasiosos dos cinemas. Para nós batizados, deveria ser o amor de Cristo. Eu sempre digo isso nos matrimônios que faço assistência.

Os filhos e filhas amados de Deus devem imitar o ser de Deus, que lhes foi revelado em Cristo. Cristo, o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens, é a referência fundamental à volta da qual se desenrola e se constrói a vida dos discípulos. Quem adere a Cristo e se dispõe a segui-Lo, deve vestir a mesma “roupa” que Cristo vestia – quer dizer, deve apresentar-se no mundo como Ele apresentava, dispor-se a viver ao jeito d’Ele, realizar as obras que Ele realizava.

Interessante a palavra usada por Paulo,  “caridade” (“agapê”) – entendida como amor de doação, de entrega, a exemplo de Jesus que amou até ao dom da vida – que deve presidir às relações entre os membros de uma família. Também no espaço familiar se deve manifestar o Homem Novo, o homem transformado por Cristo e que vive segundo Cristo.

Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para O apresentarem ao Senhor

Chamado “Evangelho da Infância” (de que faz parte d o texto que nos é hoje proposto) assenta nessa base; parte de algumas indicações históricas e desenvolve uma reflexão teológica para explicar quem é Jesus.

Nesta secção do Evangelho, Lucas está muito mais interessado em dizer quem é Jesus, do que contar-nos factos memoráveis da sua infância. Lucas propõe-nos, hoje, o quadro da apresentação de Jesus no Templo.

De acordo com Lv 12,6-8, quarenta dias após o nascimento de uma criança, esta devia ser apresentada no Templo, onde a mãe oferecia um ritual de purificação. Nessa cerimônia, devia ser oferecido um cordeiro de um ano (para as famílias mais abastadas), ou então, duas pombas, ou duas rolas (para as famílias de menores recursos).

É precisamente neste cenário que o Evangelho de hoje nos situa. A fidelidade da família de Jesus à Lei do Senhor (vers. 22.23.24), como se quisesse deixar claro que Jesus, desde o início da sua caminhada entre os homens, viveu na  fidelidade aos mandamentos e aos projetos do Pai.

Então, cabe nos perguntamos se também nossa família tem buscamos essa fidelidade… A missão de Jesus no mundo passa por aí – pelo cumprimento rigoroso da vontade e do projeto do Pai. Projeto que muitas vezes fugimos ou negamos.

No Templo, duas personagens acolhem Jesus: Simeão e Ana. Eles representam esse Israel fiel que espera ansiosamente a sua libertação e a restauração do reinado de Deus sobre o seu Povo.

A apresentação no Templo de um primogênito celebrava precisamente a libertação do Egito e a passagem da escravidão para a liberdade (cf. Ex 13,11-16).

Hoje, muitas de nossas família também necessitam de uma libertação em vários sentidos… A família de Jesus, Maria e José é, portanto, uma família que ‘escuta a Palavra de Deus’ e que constrói a sua existência ao ritmo da Palavra de Deus e dos desafios de Deus.

Maria e José sabiam que uma família que escuta a Palavra de Deus e que procura responder aos desafios postos por essa Palavra é uma família com um projeto de vida com sentido; e sabiam que uma família que se deixa guiar pela Palavra de Deus é uma família que se constrói sobre a rocha firme dos valores eternos.

A quem estamos apresentando nossos filhos, nossa família? A Deus, ou a vulgaridade temporal do mundo? Para respondemos a pergunta inicial: e sua família, como vai?


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São José / São José do Belmonte

Vimos uma grande Luz

Missa da Noite do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo
(Cor Litúrgica: Branco)


Aconteceu que, naqueles dias, César Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento de toda a terra. Este primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se cada um na sua cidade natal. Por ser da família e descendência de Davi, José subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até a cidade de Davi, chamada Belém, na Judeia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria. Naquela região havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do seu rebanho. Um anjo do Senhor apareceu aos pastores, a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. O anjo, porém, disse aos pastores: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”. E, de repente, juntou-se ao anjo uma multidão da corte celeste. Cantavam louvores a Deus, dizendo: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados”. (Lc 2,1-14)

“Vimos uma grande luz” (Is 9,1). Nesta liturgia, celebramos e provamos o clarão da nossa salvação pela encarnação do Verbo, Aquele que João desde o primeiro domingo do Advento nos apontou como sendo a Luz do mundo. E essa graça, como nos disse Paulo, “é manifestada para todos os homens” (Tt 2,11), também para nós hoje, agora. Fiquemos alegres, meus irmãos! Celebramos o início da nossa salvação, é hoje! Nasceu o Salvador, como anuncia a antífona de aclamação.

A luz da salvação entrou no mundo, mas ainda não encontrou abertura em todos os corações para se fazer presente, ainda como naquela noite em Belém, procura hospedar-se em nossas vidas, você tem um lugar para Jesus em sua casa? Poderia acolhê-lo?

Não tenhamos medo, a luz que Ele nos envolve dissipa nossas mentiras, nossas injustiças, nossos pecados, mostra-nos quem de fato somos… Alegra-te, dizem os anjos aos pobres pastores, alegra-te nos diz agora! Pois o Cristo nasceu. Cantemos junto aos anjos do céu, a realização das promessas, o amor de Deus que não desiste de nós: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amado”. (Lc 2, 14)

Isto vos servirá de sinal, indicou o anjo aos pastores. Hoje também temos inúmeros sinais de sua presença entre nós. Jesus que desde a sua concepção tomou para si a identidade de seu povo, quis encarnar-se no ventre de uma virgem pobre, nascer em Belém a periferia da periferia… seu primeiro berço foi entre animais, um vagante que não fora acolhido, nem visto… hoje continua Jesus a nascer em tantos irmãos e irmãos, desassistidos, com frio e sem teto, continua Jesus a nascer em pobres recém-nascidos em barraco, favelas e palafitas, nas periferias… contanto com presentes de socorro, ou pior, hoje Jesus nem nasce por que é morto ainda no ventre… morto pelo medo, morto pelo sistema que não cuida da vida… vidas que nem chegam a ser registradas, sendo largadas no anonimato dos abortos, largadas nos anonimatos da miséria… Ainda bem que Ele nasceu em nosso meio, basta-nos agora ir a sua gruta e contemplá-lo, porque para estes também foi que Ele veio.

Feliz Natal, 

Pe. Gutembergue Lacerda 

Faça-se a luz!

VIGÍLIA DE NATAL – Branco 

Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Abraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacó; Jacó gerou Judá e seus irmãos. Judá gerou Farés e Zara, cuja mãe era Tamar. Farés gerou Esrom; Esrom gerou Aram; Aram gerou Aminadab; Aminadab gerou Naasson; Naasson gerou Salmon; Salmon gerou Booz, cuja mãe era Raab. Booz gerou Jobed, cuja mãe era Rute. Jobed gerou Jessé. Jessé gerou o rei Davi. Davi gerou Salomão, daquela que tinha sido a mulher de Urias. Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou Asa; Asa gerou Josafá; Josafá gerou Jorão; Jorão gerou Ozias; Ozias gerou Jotão; Jotão gerou Acaz; Acaz gerou Ezequias; Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amon; Amon gerou Josias. Josias gerou Jeconias e seus irmãos, no tempo do exílio na Babilônia. Depois do exílio na Babilônia, Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel; Zorobabel gerou Abiud; Abiud gerou Eliaquim; Eliaquim gerou Azor; Azor gerou Sadoc; Sadoc gerou Aquim; Aquim gerou Eliud; Eliud gerou Eleazar; Eleazar gerou Matã; Matã gerou Jacó. Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo. Assim, as gerações desde Abraão até Davi são quatorze; de Davi até o exílio na Babilônia, quatorze; e do exílio na Babilônia até Cristo, quatorze. A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria em segredo. Enquanto José pensava nisso, eis que o anjo do Senhor apareceu-lhe em sonho e lhe disse: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”. Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa: Deus está conosco”. Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado e aceitou sua esposa. E sem ter relações com ela, Maria deu à luz um filho. E José deu ao menino o nome de Jesus. (Mat 1,1-25) 

[…] “concedei que possamos ver, sem temor, quando vier como juiz, vosso Filho Unigênito, nosso Senhor Jesus Cristo, que agora alegremente recebemos como redentor” […] Essa foi a oração inicial desta liturgia. Percebamos como a Igreja percebe e celebra os eventos da nossa Salvação, não é como se tivesse fria, apenas na recordação remota do passado, mas é do agora, é no hoje! “Ver, agora para recebermos o nosso redentor”

Deus é fiel, vemos muito essa frase estampada em carros, casas, e de fato, Deus é fiel! Na primeira leitura, Isaias parece gritas de queixas de um apaixonado, mas não é Isaias que fala, é o Senhor que ordena… “Por amor de Sião, não descansarei enquanto não surgir nela, como um luzeiro […] uma tocha, a salvação”. (Is 62,1) Deus Pai conduziu toda sua criação, perdida tantas vezes pela desobediência, até seus laços de amor, um amor capaz de nos salvar de nossas próprias más escolhas.

Deus trata seu povo como uma amada: “como uma noiva é a alegria do noivo, assim também tu és a alegria de teu Deus” (Is 62,5). Essa bela declaração deveria nos fazer cantar com o salmista: “Senhor, eu catarei eternamente o vosso amor” (Sl 88, 2a), Sim, porque é este amor que nos Salva, porque é este amor que nos tira de nossas trevas, porque é este amor traz a verdadeira alegria!

Deus é fiel, mas o medo ainda pode circundar nosso coração, este medo também esteve no coração de José, que preferia inicialmente “carregar o fardo” de uma culpa que não existia, para proteger sua doce noiva, mas ao longo do caminho, Deus faz José entender seus planos... “José, filho de Davi, não tenhas medo […]” (Mt 1,20)

Quem ama confia, José amava, por isso confiou e obedeceu. Aquele jovem casal viu e recebeu o redentor. Maria deu a luz, ela trouxe a luz ao mundo mergulhado em trevas, é retomado a primeira atitude da criação, a luz que foi a primeira coisa a ser colocada no mundo de Deus disse: “faça-se a luz”, e agora essa luz que vem ao mundo “nos salvar dos nossos pecados” (cf. Mt 1,21) seu nome é Jesus: Deus Salva. Nos salva por amor, nos dando sua própria luz que para nós é nossa salvação.


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São José / São José do Belmonte

Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus

COR LITÚRGICA: ROXO

4º Domingo do Advento


Naquele tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” Maria ficou perturbada com essas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. O anjo, então, disse-lhe: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”. Maria perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?” O anjo respondeu: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, porque para Deus nada é impossível”. Maria, então, disse: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o anjo retirou-se. (Lc 1,26-38)

Amados irmãos, chegamos ao quarto Domingo do Advento e aquela luz que tanto esperávamos acender, na verdade hoje se acenderá em cada um de nós! É a luz da Salvação pela encarnação do Verbo. O gesto externo desta pequena luz acesa é para que nós, possamos acender a nossa alegre esperança em nossa vida. Ele chegará, o Emanuel, está em nosso meio! E na missa da noite de Natal celebraremos com os anjos cantando: “Glória a Deus no mais Alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados”. (Lc 2,14).

Daí nos vem uma intuição para reflexão da nossa liturgia neste quarto Domingo do Advento. Ouvimos na primeira leitura retirada do livro de Samuel, a inquietação do Rei Davi, que desejava construir uma casa para o seu Senhor, sentia-se na verdade incomodado por morar em um palácio firme de cedro, protegido do vento, da chuva, do calor… enquanto a arca da aliança que trazia a lei do Senhor, estava sob uma simples tenda. Não sabia Davi que era o próprio Deus que lhe havia de preparar para si mesmo uma habitação digna para seu repouso… Deus escolheu o ventre de uma virgem, uma menina… Quis assim o Senhor Deus, fazer-se no nosso meio, cumprido sua palavra ao servo Davi: “o Senhor está contigo” (2Sm 7,3), reinando em nosso meio pela mesma afirmação feita aquela Jovem de Nazaré: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1,28), e hoje tornando presente a certeza de nossa fé, também proclamamos: o Senhor está no meio de nós!

Quando celebramos o natal a cada ano, não celebramos simplesmente a recordação de algo do passado, mas vivemos no hoje, no agora, Aquele que nasce em nosso meio, que traz consigo todas as realizações das promessas feitas aos profetas, e como disse Paulo aos Romanos: “agora este mistério foi manifestado […]” (Rm 16,26) Portanto, entremos neste mistério e contemplemos a nossa salvação na fragilidade de um menino, um grande, filho do altíssimo, Santo, herdeiro de um trono… e que também quer morar em nosso coração (Cf. Lc 1,32)


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São José / São José do Belmonte

Alegrai-vos, Ele está bem perto!

COR LITÚRGICA: ROXO

3º Domingo do Advento


Surgiu um homem enviado por Deus; seu nome era João. Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele. Ele não era a luz, mas veio dar testemunho da luz. Este foi o testemunho de João, quando os judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar: “Quem és tu?” João confessou e não negou. Confessou: “Eu não sou o Messias”. Eles perguntaram: “Quem és então? És tu Elias?” João respondeu: “Não sou”. Eles perguntaram: “És profeta?” Ele respondeu: “Não”. Perguntaram então: “Quem és, afinal? Temos que levar uma resposta para aqueles que nos enviaram. O que dizes de ti mesmo?”João declarou: “Eu sou a voz que grita no deserto: ‘Aplainai o caminho do Senhor’” — conforme disse o profeta Isaías. Ora, os que tinham sido enviados pertenciam aos fariseus e perguntaram: “Por que então andas batizando, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?” João respondeu: “Eu batizo com água; mas no meio de vós está aquele que vós não conheceis, e que vem depois de mim. Eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias”. Isto aconteceu em Betânia, além do Jordão, onde João estava batizando. (Jo 1,6-8.19-28)

Amados irmãos e irmãs, neste percurso de preparação com o Advento para nosso encontro com o Senhor que é, que era, e que há de vir, chegamos a terceira porta, a porta da alegria! Alegrar-se porque já estamos bem perto de sua chegada, para nosso encontro. Ele é fiel, Ele cumprirá sua promessa.

A liturgia deste 3º Domingo do Advento nos instruí o seguinte na oração coleta da Santa Missa: “Ó Deus de bondade, que vedes o vosso povo esperando fervoroso o natal do Senhor, daí chegarmos às alegrias da salvação e celebrá-las sempre com intenso júbilo na solene liturgia.”

A verdadeira alegria, a plenitude da alegria de nossa vida e definitiva está reservada para a eternidade, mas, já aqui, hoje, nessa sagrada liturgia saboreamos o seu prazer, pois a missa é o céu na terra!

O quarto escritor do livro de Isaías (61, 1-2a.10-11), vibra nesta mesma alegria quatrocentos anos antes de conhecer o próprio Messias, só em saber que Ele virá, só em receber a promessa, sua alegria já é imensa, pois como o próprio profeta disse: “Exulto de alegria no Senhor!”. Esse a quem Isaías comemora por sua chegada, virá ungido, marcado, consagrado pelo óleo e pelo Espírito, e sua missão será libertadora. Já aqui a tarefa messiânica encontra algumas resistências, não era bem isso que seus patrícios esperavam… eles aguardavam um rei, aos moldes humanos. Mas Deus lhe fez muito mais, nos dando um Salvador.

Não teria melhor escolha para o salmo a não ser cantamos as alegrias de Maria, sim, hoje nosso salmo foi o cântico de Maria ( Lc 1,46). Ela que foi instrumento, matéria prima para a realização da vontade de Deus. Poderíamos sempre sermos gratos, nos jubilar pelas realizações do Senhor diariamente, Ele que está conosco sempre. Paulo falando aos Tessalonicensses pede a comunidade que alegre-se. Recordo aqui dito popular que nossos avós dizem: “Tristeza é coisa do diabo!” E é verdade, porque ele não consegue nem quer se alegrar, apesar das dificuldades reais da vida, nos disse Paulo: “Dai graças em todas as circunstâncias”, alegremo-nos, Maranatá: Ele veio!

Ele pede aos discípulos de Jesus que sejam “santos” e irrepreensíveis, que vivam alegres, em atitude de louvor e de adoração, abertos aos dons do Espírito e aos desafios de Deus. O Evangelho apresenta-nos João Batista, a “voz” que prepara os homens para acolher Jesus, a “luz” do mundo.

O objetivo de João não é centrar sobre si próprio o foco da atenção pública; ele está apenas interessado em levar os seus interlocutores a acolher e a “conhecer” Jesus, “Aquele” que o Pai enviou com uma proposta de vida definitiva e de liberdade plena para os homens. A “voz”, através da qual Deus fala, convida-nos a endireitar “o caminho do Senhor”.

Na linguagem do Evangelho segundo João, é um convite a deixar “as trevas” e a nascer para “a luz”. Implica, na vida prática, abandonar a mentira, os comportamentos egoístas, as atitudes injustas, os gestos de violência, os preconceitos, o comodismo, a autossuficiência, tudo o que desfeia a nossa vida, nos torna escravos e nos impede de chegar à verdadeira felicidade.

Em termos pessoais, quais são as mudanças que eu tenho de operar na minha existência para passar das “trevas” para a “luz”? O que é que me escraviza e me impede de ser plenamente feliz? O que é que em mim gera desilusão, frustração, desencanto, sofrimento?

A quem dou ouvidos: às propostas de Jesus, ou às propostas da moda, que aparecem dia a dia nas colunas e nas redes sociais e que ditam o que está certo e está errado à luz dos critérios do mundo? Que significado é que Jesus e a sua proposta assumem no meu dia a dia?


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São José / São José do Belmonte

Como posso merecer que a mãe do meu Senhor venha me visitar?

COR LITÚRGICA: BRANCO

Nossa Senhora de Guadalupe – Padroeira da América Latina | Festa


Naqueles dias Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou em seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Então Maria disse: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”. (Lc 1,39-47)

Foi assim que Isabel mostrou sua alegria ao receber Maria em sua casa. Iniciou dizendo que essa deveria ser uma atitude tomada por cada um de nós. Seria sensato! Aliás, tudo o que Isabel disse naquele encontro foi muito precioso, porque, diz o evangelho, ela ficou cheia do Espírito Santo. E uma das coisas que ela disse foi: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”, louvação à Virgem que nós continuamos a repetir na oração da Ave Maria. Este que é um reconhecimento das maravilhas do Senhor nosso Deus.

Maria é a mulher que proporciona encontros, mas não qualquer um… Ela sempre nos levará ao Senhor. Foi o que ela fez a Isabel, foi o que ela fez ao indígena Ruan Diego e é o que ela faz a cada um de nós. Deus visitou o seu povo”. A visita de Maria é a visita de Deus, ela leva a bênção de Deus, aliás, ela leva Deus mesmo, pois estava grávida de Jesus.

Neste tempo do Advento, somos inspirados pela pessoa de Maria a levarmos também Jesus conosco, em nossos encontros diários, proporcionar tamanha alegria na vida daqueles que conosco estiverem, a alegria do encontro com o Senhor. Um encontro que gera paz, reconciliação, solidariedade e libertação.

A Virgem Maria aparecendo no México, em Guadalupe, a um indígena, mostra ao mundo que Deus ama a cada filho e que todos são de seu interesse! Ela assume as características de cada povo, de cada nação… Ela caminha junto conosco, enquanto muitas vezes nós nos fazemos de inimigos mútuos, não nos reconhecemos como irmãos, e ao invés de saudarmos com a paz do Senhor em nossos encontros, levamos o ódio, o racismo, a intolerância, o rancor e a vingança.

De fato, como poderemos merecer tamanha visita da mãe do Senhor, que nos traz Ele próprio como presente? Aí está a chave, ela nos traz Ele, não porque merecemos, mas porque necessitamos. Viva Nossa Senhora de Guadalupe, imperatriz da América Latina!


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São José / São José do Belmonte

Vós admirais estas coisas?

COR LITÚRGICA: VERDE

34ª Semana do Tempo Comum | Terça-feira


Naquele tempo, algumas pessoas comentavam a respeito do Templo que era enfeitado com belas pedras e com ofertas votivas. Jesus disse: “Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído”. Mas eles perguntaram: “Mestre, quando acontecerá isto? E qual vai ser o sinal de que estas coisas estão para acontecer?” Jesus respondeu: “Cuidado para não serdes enganados, porque muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Sou eu!’ E ainda: ‘O tempo está próximo’. Não sigais essa gente! Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não fiqueis apavorados. É preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim”. E Jesus continuou: “Um povo se levantará contra outro povo, um país atacará outro país. Haverá grandes terremotos, fomes e pestes em muitos lugares; acontecerão coisas pavorosas e grandes sinais serão vistos no céu”. (Lc 21,5-11)

Queridos leitores, irmãos e irmãs, estamos vivenciando a última semana do tempo comum, a liturgia vai nos conduzindo a um novo tempo da Igreja: o Advento. Momento muito propício para crescermos no sentimento de espera, uma espera que se prepara alegremente, uma espera vigilante e orante.

Essa passagem de hoje é caracterizada pela teologia como um discurso escatológico. O que poderá nos ajudar a refletir esse Evangelho de hoje serão as perguntas que os ouvintes fazem a Jesus – «Mestre, quando sucederá isso? E qual será o sinal de que estas coisas estão para acontecer?» – estas são duas pistas para investigarmos a mensagem. O discurso de Jesus é feito diante do templo, com as suas «belas pedras» e «ofertas votivas», o que cria contraste entre o presente, que ameaça fechar a religiosidade dos contemporâneos de Jesus, e o futuro para onde Jesus deseja orientar a fé dos seus ouvintes.

Tudo o que é deste mundo terá certamente fim, mais tarde ou mais cedo, independente de nossos esforços ou do longo tempo que tenha ou esteja. Por isso, o mais importante é acolhermos o ensinamento de Jesus e deixar-nos guiar por Ele, enquanto aguardamos a sua vinda. Jesus avisa-nos: «Tende cuidado em não vos deixardes enganar» (v. 8). De fato, também hoje, há pessoas que propõem coisas extraordinárias. «Não vos alarmeis», alerta-nos Jesus (v. 8). Tudo o que acontece é humano. O reino é uma realidade eterna.

Os contemporâneos de Jesus se admiravam com as pedras ornamentais, mal sabiam que não ficaria pedra sob pedra do templo. Pois assim também muitas vezes, voltamos nossa atenção para aquilo que é passageiro, ornamental e perdemos o essencial. E nos perguntemos hoje, o que estamos admirando? O que está chamando minha atenção? Neste novo advento olhemos para aquilo que realmente importa, para aquele que de fato aguardamos: O Filho de Deus!


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São José / São José do Belmonte

Todo aquele que faz a vontade de Deus

COR LITÚRGICA: BRANCO

Apresentação de Nossa Senhora – Memória | Terça-feira


Naquele tempo, enquanto Jesus estava falando às multidões, sua mãe e seus irmãos ficaram do lado de fora, procurando falar com ele. Alguém disse a Jesus: “Olha! Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar contigo”. Jesus perguntou àquele que tinha falado: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” E, estendendo a mão para os discípulos, Jesus disse: “Eis minha mãe e meus irmãos. Pois todo aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. (Mt 12,46-50)

Queridos irmãos e irmãs, hoje a Igreja celebra a memória litúrgica da Apresentação de Nossa Senhora. Vamos entender brevemente a que se refere:

História
Essa memória litúrgica recorda, segundo os Evangelhos apócrifos, o dia em que Maria, ainda criança, vai ao templo de Jerusalém para se consagrar a Deus. Os manuscritos não canônicos, contam que Joaquim e Ana, por muito tempo, não tinham filhos, até que nasceu Maria, a qual desde a sua concepção imaculada se dedicou total e livremente à Deus, impelida pelo Espírito Santo. Tanto no Oriente quanto no Ocidente, observamos esta celebração mariana nascendo do meio do povo e sendo acolhida, com tamanha sabedoria, pela Liturgia Católica. Por isso, essa festa aparece no Missal Romano a partir de 1505, através do qual se busca exaltar Jesus em nome daquela que muito bem soube fazê-lo em vida.

Reflexão do Evangelho
Muito diferente do que algumas pessoas mal-intencionadas interpretam, essa perícope do Evangelho de Marcos não quer mostrar nenhum sentimento de desprezo da parte de Jesus aos seus familiares e, de modo, especial a sua mãe. Jesus, pelo contrário, usa da ocasião como uma rica oportunidade de expandir a compreensão daqueles que O seguiam sobre a ideia de familiaridade. 

Entendamos que, no contexto do qual falamos, a sociedade era marcada pela homogeneidade, onde o de fora, o estrangeiro, o diferente era impuro… Inclusive a exaltação do nome da família era algo muito importante por fatores econômicos, ocorrendo mesmo dos casamentos se darem apenas com pessoas próximas com a intenção de se manter certa “pureza” entre as famílias.

Então, Jesus, com seu gesto, expande não só a sua família, mas também estabelece um novo critério sobre o sentido de família que não diz respeito só à consanguinidade, mas à realização da vontade de Deus, como um “telos”, uma finalidade, um propósito de vida. Assim, para além do cumprimento de um preceito, este propósito deve ser algo permanente e com consequências, não apenas momentâneo.

Agora, sejamos humildes o suficiente para nos fazermos a seguinte pergunta: “Dentre os seres humanos que já passaram nessa terra, quem mais e melhor realizou a vontade de Deus? Quem melhor viveu o propósito de Deus? Quem, de forma mais plena, assumiu, até os fins últimos, os riscos de fazer a vontade de Deus?

Tempo para pensar

Pois bem, espero que tenha chegado a mesma conclusão que os pais da Igreja, que a Sagrada Tradição e o Magistério… Maria foi esse ser humano! Ela cumpriu, assumiu, viveu, se integrou inteiramente à vontade de Deus. Ora, é ela mesma que diz: “Faça-se em mim, conforme a tua vontade!”.

Agora vejamos o que foi que o anjo lhe falou: “Feliz és tu…”. De fato, Maria é feliz, é bem-aventurada, e com ela também nós nos alegramos por sua firme convicção em deixar realizar-se nela a vontade de Deus, e também nós buscamos aperfeiçoar diariamente. Deveríamos aprender com atenção a fazer o mesmo que Maria. Em um mundo onde cada vez mais o exagero pelo subjetivismo toma espaço, onde cada vez mais o “eu” é mais forte que o “nós”, onde a minha vontade sobressai até mesmo a necessidade do outro, o exemplo de Maria é provocativo.

Para concluir essa reflexão, quero lançar um olhar sobre essa atitude de Jesus, em expandir para nós a possibilidade de entrarmos para sua família, para a família do céu, a família de Deus! Somos a todo instante provocados por Deus a nos reaproximar da sua vontade que é perfeita, que é completa. A grande tarefa é essa, abrir mão da minha vontade…


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São José / São José do Belmonte

Fizemos o que deveríamos fazer

COR LITÚRGICA: VERDE

32ª Semana do Tempo Comum | Terça-feira


Naquele tempo, disse Jesus: “Se algum de vós tem um empregado que trabalha a terra ou cuida dos animais, por acaso vai dizer-lhe, quando ele volta do campo: ‘Vem depressa para a mesa?’ Pelo contrário, não vai dizer ao empregado: ‘Prepara-me o jantar, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; depois disso poderás comer e beber?’ Será que vai agradecer ao empregado, porque fez o que lhe havia mandado? Assim também vós: quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: ‘Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer’”. (Lc 17,7-10)

Caros irmãos e irmãs, no Evangelho proposto para a liturgia deste dia, encontramos Jesus em uma cena que, à primeira vista parece ser rígida, mas que na verdade sua lição é de esclarecimento. Alguns momentos da vida se faz necessário uma clareza rígida, ou melhor impactante, para “nos colocarmos em nosso lugar”, pois é bem provável que as vezes pensemos ocupar o lugar e a função ser do mestre.

Mais uma vez, Jesus acentua que, na lógica do Reino, não conta tanto o que se faz, não ganhamos o céu por produção, usando a lógica comercial.

Não se recomenda uma humildade genérica, ou protocolar: o que Lhe interessa realmente é o que pensam e pretendem fazer os apóstolos, quando se põem ao seu serviço e ao serviço da sua causa, a intenção com que servem. Deus não precisa de nós, nem das nossas ajudas; creio que isso seja claro. Mas quer colaboradores em total sintonia com o seu projeto de salvação, aqui e agora personificado em Jesus de Nazaré.

«Escravos inúteis» (v. 10), isto é, comuns, simples… O que Jesus quer que os apóstolos interiorizem é a atitude que, Ele mesmo, demonstrará na véspera da paixão: depor o manto, servir os irmãos e, no fim, julgar-se e declarar-se «escravos inúteis» (cf. Lc 22, 24-27; Jo 13, 1-17).

Portanto, não busquemos elogios se desenvolvermos algum serviço de evangelização. Também não fiquemos tristes, se algum momento, pelos olhos humanos, não formos reconhecidos, pois nossa recompensa não é meramente neste mundo. Porém, nos cabe uma pergunta: será que ao menos em nossa vida temos feito aquilo que é de nosso dever fazer? Ou nem isso temos feito?


Pe. Gutembergue Lacerda

Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira

Vigário Paroquial da Paróquia de São José / São José do Belmonte