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Dino propõe reforma do Judiciário em artigo repleto de críticas veladas a Fachin

Ministro do STF Flávio Dino/Foto: Gustavo Moreno/STF

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino publicou nesta segunda-feira, 20, um artigo de opinião no site ICL Notícias em que propõe uma ampla reforma no Poder Judiciário da primeira instância às Cortes superiores.

Mas para além das propostas, o texto é permeado de críticas ao presidente do STF, Edson Fachin, que encampou a questão ética como principal bandeira da sua gestão e que defende arduamente a aprovação de um código de conduta para o magistrados de tribunais superiores.

Dino avalia, por sua vez, que “mudanças superficiais, assentadas em slogans fáceis, ou de caráter puramente retaliatório não fortalecem o Brasil”.

Como mostrou o Estadão, o STF está dividido em relação à proposta de Fachin de um código de ética para disciplinar a atuação dos ministros. Dino integra a ala composta por Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin, que é completamente refratária à ideia do presidente da Corte por avaliar que a medida apenas exporia os membros do colegiado em um momento de crise na esteira do escândalo do Banco Master.

A Nova Reforma do Judiciário deve ter como foco um sistema jurisdicional capaz de prover segurança jurídica e acesso a direitos, com mais velocidade, confiabilidade e justiça. O Brasil precisa de mais Justiça, não menos, como parecem pretender certos discursos superficiais sobre uma suposta ‘autocontenção’, vista como uma ‘pedra filosofal’“, defendeu Dino no artigo.

O discurso da autocontenção tem sido repetido exaustivamente por Fachin em seu campanha interna e externa em defesa do código de ética do STF. Em entrevista ao Estadão em janeiro deste ano, o presidente da Corte defendeu de forma enfática: ‘Ou nos autolimitamos, ou poderá haver limitação de um Poder externo’.

Dois meses depois, em palestra a estudantes, Fachin explicitou a sua visão de que “autocontenção não é fraqueza“, mas sim “respeito à separação de Poder, o que distoa da avaliação de Dino“.

Do outro lado, Dino defende no artigo que 22 anos após a última reforma do Poder Judiciário (Emenda Constitucional nº 45/2004) que criou, dentre outras medidas, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), é necessário um “novo ciclo de mudanças constitucionais e legais”.

O ministro pondera, contudo, que as novas mudanças precisam ser feitas com diálogo e ampla participação da classe jurídica, pois “só o AI-5 da ditadura conseguiu impor, ‘de fora para dentro’, mudanças no Judiciário“. Dino coloca como requisito da nova reforma “a participação dos órgãos integrantes do Sistema de Justiça e das entidades representativas dos seus membros”

O contrário de caminhos marcados por constrangimentos autoritários, as reformas devem vir para FORTALECER o sistema de Justiça, e não para suprimir as virtudes que o tornaram capaz de concretizar os direitos constitucionais, controlar abusos de poder e sustentar a democracia – inclusive contra o império das fake news e contra agressões de pessoas com armas na cintura”, defendeu.

Propostas vão de mudanças penais a uso de IA

Na avaliação de Dino, foram as decisões do STF em temas de grande repercussão nacional – a exemplo das próprias fake news, big techs, emendas parlamentares e da defesa da democracia em resposta aos atos golpistas de 8 de janeiro e do debate sobre intervenção militar por meio do artigo 142 da Constituição – que tornaram a Corte e o Judiciário como um todo alvos de debates sociais que fomentaram a necessidade de uma reforma.

O STF foi alvo de retaliações estrangeiras, sem, contudo, se curvar a imposições, o que provavelmente ampliou sentimentos vis“, avaliou. “De outra face, é inequívoco que em um mundo marcado por tantas desigualdades, conflitos e precariedades institucionais, REFORMAS são bem-vindas, quando inspiradas pelo interesse público e revestidas de consistência técnica”.

A mais recente rodada da pesquisa AtlasIntel produzida a pedido do Estadão mostra que 60% dos brasileiros desconfiam do STF e que nove dos dez atuais ministros têm avaliação negativa perante a população. Diante deste quadro, Dino propõe 15 alterações no Poder Judiciário que abarquem desde a Constituição ao Código de Processo Penal.

O ministro propõe, por exemplo, que sejam fixados requisitos processuais para acessar os tribunais superiores por meio de recursos, especialmente o Superior Tribunal de Justiça (STJ). No mesmo sentido, ele sugere a revisão das competências constitucionais do STF e demais Cortes superiores.

Dino expôs no artigo sua preocupação com o volume de processos em tramitação no Judiciário e a consequente demora em solucionar os casos. De acordo com o Painel Justiça em Números do CNJ, até 28 de fevereiro de 2026, em todo o Poder Judiciário, estavam pendentes de julgamento 75.525.447 processos, dos quais 5.606.312 foram iniciados no ano de 2026.

No âmbito da correição, Dino defende a revisão do capítulo do Código Penal sobre os crimes contra a Administração da Justiça e propõe punições mais rigorosas para magistrados, procuradores e demais membros do Judiciário que incorram em corrupção, peculato e prevaricação.

A confiabilidade é um atributo fundamental para a legitimação democrática de todos os profissionais do Direito, o que justifica um tratamento legal específico“, defendeu.

Outra medida por ele defendida é a revisão de temas como direitos, deveres, remuneração, impedimentos, ética e disciplina das carreiras jurídicas. Dino, porém, não encampou nenhuma das propostas de Fachin, como a imposição de regras e a obrigatoriedade de transparência para que ministros participem de eventos e recebam por palestras.

O ministro defende, por sua vez, o fim de “institutos arcaicos“, como a “aposentadoria compulsória punitiva” e a multiplicação de parcelas indenizatórias – os famosos penduricalhos. A reforma encampada por Dino ainda discutiria regras e limites para o uso de Inteligência Artificial na tramitação de processos judiciais.

Apesar das sugestões do ministro, cabe ao Congresso legislar sobre mudanças no sistema de Justiça. A atual crise que afeta a imagem do STF tem feito crescer entre os parlamentares o desejo de enquadramento do tribunal, sobretudo num momento em que Dino e outros ministros conduzem processos sobre crimes relacionados ao manejo de emendas parlamentares.

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