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Demissão de Lisa Cook por Trump desafia independência histórica do banco central americano

A diretora do Federal Reserve Lisa Cook e o presidente dos EUA, Donald Trump — Foto: Saul Loeb e Andrew Caballero-Reynolds/AFP

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu afastar a economista Lisa Cook do Conselho de Governadores do Federal Reserve (Fed) nesta segunda-feira (25), o que representa uma ameaça inédita na história recente do banco central americano.

Pela estrutura legal do Fed, considerado um dos pilares da estabilidade econômica do país, o presidente dos EUA não tem autoridade direta para demitir membros do conselho sem comprovar uma falta grave.

  • Trump diz que Lisa Cook, que ocupa uma das sete cadeiras do conselho, será afastada sob alegações de supostas irregularidades com hipotecas.
  • Em nota divulgada por seu advogado, Cook diz que a decisão é ilegal. “Não vou renunciar. Continuarei a cumprir meus deveres para ajudar a economia americana, como venho fazendo desde 2022“, afirmou.

A tentativa de afastamento sem o devido processo gera preocupações sobre a integridade institucional do banco central. A decisão de Trump, portanto, pode gerar riscos aos mercados financeiros, que ainda avaliam os efeitos do “tarifaço”.

Paul Donovan, economista-chefe do UBS, alerta que o Fed pode se tornar o próximo “bode expiatório” da economia — quando um grupo é responsabilizado pela insegurança econômica. Segundo ele, no início do ano, a política dos EUA estava centrada no discurso de que “a culpa é dos estrangeiros”.

“Embora a maioria dos eleitores dos EUA tenha apenas uma compreensão vaga do que é o Fed, ele é um bode expiatório conveniente para a fraqueza econômica. Desafiar a independência do Fed terá consequências econômicas negativas.”

Por que a demissão é inédita?

A demissão de um membro do Conselho de Governadores do Fed por decisão direta do presidente é inédita. O Federal Reserve foi estruturado para proteger a política monetária de pressões políticas.

Seus integrantes têm mandatos longos e escalonados, não podem ser autoridades eleitas nem membros do Executivo — o que garante estabilidade e continuidade nas decisões econômicas.

O Fed também não depende do orçamento do Congresso e não submete suas decisões ao aval do presidente ou do Legislativo.

Essa independência assegura que o banco central atue com foco em metas de longo prazo, como pleno emprego e estabilidade de preços, sem ceder a interesses eleitorais ou imediatistas.

Como funciona o Federal Reserve?

O Federal Reserve é formado por três entidades principais:

  • Conselho de Governadores: com sede em Washington, D.C., reúne sete membros indicados pelo presidente e aprovados pelo Senado. Supervisiona os 12 Bancos de Reserva Regionais e participa das decisões de política monetária.
  • Bancos de Reserva Regionais: distribuídos em 12 distritos nos EUA, funcionam como braços operacionais do sistema.
  • Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC): define a política monetária, como a taxa de juros, e é composto pelos membros do Conselho e pelos presidentes dos Bancos Regionais.
  • O Fed também presta contas ao Congresso com relatórios semestrais, depoimentos públicos e divulgação de atas e balanços auditados, mantendo equilíbrio entre autonomia técnica e responsabilidade pública.

Riscos à credibilidade

A tentativa de Trump de intervir diretamente na composição do Conselho do Fed acende alertas sobre a politização da política monetária.

  • A credibilidade do banco central americano — considerado o mais poderoso do mundo — depende justamente de sua capacidade de tomar decisões técnicas, livres de interferência política.
  • Especialistas destacam que medidas como essa podem desestabilizar os mercados financeiros, sobretudo em um momento já delicado, marcado pelos efeitos das tarifas comerciais.

Lula x Campos Neto

No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também fez duras críticas ao ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, motivadas pela elevada taxa básica de juros.

Em uma das diversas ocasiões, em entrevista à jornalista Natuza Nery, da GloboNews, Lula já chegou a declarar que a independência do BC era uma “bobagem“:

Em entrevista à GloboNews, Lula chegou a classificar a independência do BC como uma “bobagem”:

“Nesse país se brigou muito para ter um Banco Central independente, achando que ia melhorar o quê? Eu posso te dizer com a minha experiência, é uma bobagem achar que o presidente do Banco Central independente vai fazer mais do que fez o Banco Central quando o presidente era que indicava.”

A autonomia do BC foi sancionada em 2021 pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, após aprovação no Congresso Nacional. A lei estabeleceu mandatos de quatro anos para o presidente e os diretores do BC, não coincidentes com o mandato presidencial.

A medida busca blindar a instituição de pressões político-partidárias: como a diretoria não pode ser demitida por elevar a taxa de juros, a atuação passa a ser mais técnica, com foco no combate à inflação.

Entre suas atribuições, cabe ao Comitê de Política Monetária (Copom), do BC, definir a Selic, a taxa básica de juros da economia.

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