
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, declarou hoje que a Faixa de Gaza é atualmente um “campo de morte” e afirmou que a ONU não pode aceitar o bloqueio da entrada de ajuda humanitária no enclave. “Gaza é um campo de morte e os civis estão presos num ciclo interminável de morte”, denunciou.
Guterres rejeitou o plano de Israel para controlar a entrega de ajuda humanitária na região palestina, acusando Tel Aviv da intenção de controlar ainda mais e limitar insensivelmente a ajuda até a última caloria e grão de farinha. “Deixe-me ser claro! Não participaremos de nenhum acordo que não respeite totalmente os princípios humanitários: humanidade, imparcialidade, independência e neutralidade. Há mais de um mês que não entra uma única gota de ajuda em Gaza. Nem alimentos, nem combustível, nem medicamentos, nem bens comerciais. Enquanto a ajuda está secando, as comportas do horror reabriram”, disse Guterres, que condena a retomada dos ataques israelenses em 18 de março, que já causou mais de 1400 mortes e deslocou quase 400 mil pessoas.
O chefe da ONU alertou que a capacidade das Nações Unidas para enviar ajudar humanitária para Gaza tem sido “estrangulada” e considerou que Israel não está a cumprir obrigações inequívocas enquanto potência ocupante ao abrigo do Direito Internacional. Guterres apelou ainda a uma investigação independente sobre as mortes dos trabalhadores das equipes de ajuda humanitária, incluindo pessoal da própria ONU, encontrados numa vala na cidade de Rafah, no sul de Gaza.
A escassez e a proibição de ajuda humanitária são endossadas e denunciadas por outras várias entidades, como os Médicos Sem Fronteira, a Anistia Internacional e o Crescente Vermelho, braço da Cruz Vermelha Internacional. As entidades afirmam que a política de punição coletiva adotada por Israel impede a entrada de suprimentos além dos cortes na eletricidade, assinalando que a situação humanitária se deteriorou perigosamente com o aumento da fome, desnutrição, falta de água potável e remédios e condições sanitárias alarmantes.
O governo israelense interrompeu o fornecimento de alimentos e outras ajudas essenciais antes mesmo da violação do cessar-fogo, alegando pressionar o Hamas a libertar mais reféns e impor novas condições para a extensão da trégua.
Em relação aos planos dos EUA para Gaza, ao ser questionado Guterres indicou que a deslocação forçada de palestinos seria contra o Direito Internacional. “Os palestinos devem poder viver num Estado palestino lado a lado com um Estado israelense. Essa é a única solução que pode trazer a paz ao Oriente Médio”, assegurou.
Por sua vez, o presidente dos EUA, Donald Trump, defende que ninguém quer viver em Gaza e que seria “uma coisa boa” se as forças norte-americanas assumissem o controle do enclave palestino. Trump insistiu que o local é um “imóvel incrivelmente importante”, e já sugeriu reconstruir e transformá-la na “Riviera do Oriente Médio. Para isso, os seus habitantes poderiam ser transferidos para o Egito e a Jordânia, que rejeitaram veementemente esta opção, apesar da pressão de Washington.
Em reação as declarações do secretário-geral das Nações Unidas, o Ministério das Relações Exteriores de Israel rejeitou qualquer escassez de ajuda humanitária em Gaza e acusou Guterres de espalhar calúnias. “Não há falta de ajuda humanitária na Faixa de Gaza. Mais de 25 mil caminhões de ajuda passaram pela Faixa de Gaza durante o cessar-fogo e o Hamas usou essa ajuda para reconstruir a sua máquina de guerra”, afirmou Omer Marmorstein, porta-voz da chancelaria israelense.


