
O número de mortes por causa de leptospirose aumentou mais de 70% nos últimos dois anos. A água das enchentes é a principal causa de contaminação.
Quem convive com a difícil realidade da falta de quase tudo, sabe que quando a água suja invade o lugar onde se mora, a saúde fica em perigo.
“Infelizmente tive muito contato com a água. Eu ainda estou com o corpo todo dolorido”, lamenta a cuidadora de idosos Ingrid dos Santos.
As fortes chuvas, os alagamentos, as inundações, as enchentes trazem, no correr da água, o risco da leptospirose. Quem vive em condições precárias de moradia e de saneamento básico também é aquele que costuma ser mais afetado por um problema de saúde pública muitas vezes negligenciado. De 2021 a 2022, o número de casos aumentou 52% e, de mortes, 70%.
“Eu comecei os sintomas com muitas dores nas pernas, mal estar, muita dor de cabeça. Me deu febre também, vômito, diarreia”, enumerou o chefe de cozinha Victor Costa em entrevista no dia 15 de janeiro.
Era leptospirose o que o Victor tinha, depois de uma enchente em Juiz de Fora, Minas Gerais.
Em União dos Palmares, Alagoas, a doméstica Gilvanete da Silva precisou ser internada em julho do ano passado:
“Essa doença, meu fio, eu saí do pé da cova. Quem teve contato com água assim, tem que se cuidar”.
Os ratos são os principais transmissores da doença. A água da enchente se mistura com a urina do rato, infectado pela bactéria Leptospira. A doença é transmitida, principalmente, quando a água contaminada entra em contato com a boca, os olhos e machucados na pele. E como essa bactéria é muito resistente, o risco não desaparece quando o nível da água baixa, porque ela continua ativa nos resíduos úmidos por bastante tempo.
“Quando você pega uma amostra como essa aqui, em que o barro está embaixo, muitas vezes a gente encontra os microorganismos aqui”, explica a pesquisadora Universidade Municipal de São Caetano do Sul Marta Marcondes.
Na coleta deste verão, a Universidade Municipal de São Caetano encontrou a bactéria nos piscinões de três cidades do ABC paulista. Foi por causa dela que o seu Carlos perdeu o filho Estéfano, aos 25 anos, no Pará.
“Deram alta para ele no mesmo dia e voltou para casa. Piorou, piorou mesmo, e não dava mais “, relembra o pai, Carlos Alberto.
A saída é saneamento, água e sabão, e tratar direito quem acaba doente.
“A leptospirose na sua fase leve pode ser confundida com outras doenças como a dengue e chikungunya. Então, é muito importante que, ao chegar em um posto de saúde, notificar o médico que está te atendendo, que você teve contato com água de enchente. Para que ele possa fazer o diagnóstico de leptospirose e começar com a antibióticoterapia, porque a leptospirose tem cura”, afirma o diretor da Fiocruz em São Paulo, Rodrigo Stabeli.