
Um novo vídeo mostra Amisadai Andrade, suposto coordenador de um “gabinete do ódio” contra o ex-prefeito do Recife João Campos (PSB), detalhando um esquema para difamar o socialista nas redes sociais. Nas imagens, veiculadas pela TV Record neste sábado (26), o ex-servidor do estado de Pernambuco comenta sobre uma “estrutura com jornalistas” para “bater em João”.
O Diario de Pernambuco teve acesso à gravação, que mostra uma reunião de Amisadai Andrade com José Roberto Júnior e Rodolfo Costa, sócios do site Portal de Prefeitura, também apontados como participantes do esquema.
“A gente tem uns parceiros aqui que ‘batem’ em João, a gente tem uma estrutura lá de jornalista e tal”, diz Amisadai. Logo depois, Rodolfo acrescenta: “A gente já se conhece, tanto é que você vê que a gente tem collab, então a gente já tem uma relação”, diz sobre publicação nas redes sociais.
A existência de um suposta rede de ataques organizada pelo governo de Pernambuco, com o objetivo de perseguir adversários da governadora e candidata à reeleição, Raquel Lyra (PSD), repercutiu no fim de agosto, após uma reportagem da TV Record.
A matéria apontava que Amisadai, um servidor da Caixa Econômica Federal emprestado ao governo de Pernambuco para a Secretaria de Turismo e Lazer de Pernambuco (Setur), seria o organizador do esquema, que envolvia o site Portal de Prefeitura para atacar João Campos nas redes sociais. Para isso o portal receberia dinheiro de verbas de publicidade do governo.
No novo trecho do vídeo que veio à tona neste sábado, Amisadai e Rodolfo explicam informações sobre como era o pagamento para realização de postagens, que envolvia uma rede de cerca de sete perfis “parceiros”.
“Do lado de cá a gente acerta direitinho, paga eles, tudo ‘redondinho’,” fala Amisadai, complementado por Rodolfo, que diz: “O cliente paga em dinheiro se preferir”. Ainda sobre pagamentos, Amisadai adiciona que tinha um cliente que pagava na “caixa de charuto”.
Ainda de acordo com a reportagem de Record, só neste ano, o Governo de Pernambuco teria pagou R$ 186 mil ao Portal de Prefeitura. O veículo afirma, também que o Tribunal de Contas de Pernambuco (TCE-PE), a Controladoria Geral da União (CGU), e os Ministérios Públicos de Pernambuco e Eleitoral foram acionados para investigar o caso.
Defesa de Amisadai
O Diario procurou a defesa de Amisadai Andrade e também Rodolfo Costa. Nenhum deles retornou o contato. O espaço segue aberto. Em posicionamento anterior, a defesa de Amisadai Andrade negou que ele tenha integrado ou operado qualquer estrutura de “gabinete do ódio”.
O advogado Luiz Rocha reconheceu, no entanto, que o ex-servidor utilizou “falas impróprias” e se excedeu ao tentar demonstrar uma influência dentro do governo estadual que, segundo a defesa, ele não possuía.
A defesa também colocou em dúvida a autenticidade de parte do material divulgado pela TV Record. Os advogados protocolaram uma notícia-crime na Polícia Federal e levantaram a hipótese de manipulação eletrônica, cortes seletivos, descontextualização das conversas e até uso de inteligência artificial. Também solicitaram uma perícia técnica e acesso aos arquivos originais das gravações.
Luiz Rocha negou ainda que Amisadai tenha se reunido com Raquel Lyra, para planejar ataques ou discutir estratégias digitais. Segundo o advogado, as passagens do ex-servidor pelo Palácio do Campo das Princesas ocorreram por motivos profissionais, em contatos com a Secretaria de Comunicação e para tratar de questões relacionadas à sua nomeação no governo.
Governo de Pernambuco nega qualquer vínculo
Desde que o caso veio a público, a governadora Raquel Lyra negam a existência de uma estrutura organizada pela gestão estadual para atacar adversários políticos. Amisadai Andrade, que ocupava o cargo de superintendente de Operações da Arena de Pernambuco, vinculada à Secretaria de Turismo e Lazer, foi exonerado no dia seguinte à exibição da primeira reportagem da TV Record sobre o caso.
Em sabatina promovida pelo Diario de Pernambuco, Raquel afirmou ter sido surpreendida pelas declarações do então servidor e contestou qualquer participação direta no suposto esquema. Ao ser questionada sobre a alegação de que Amisadai teria conversado com ela, a governadora respondeu: “Eu quero ver provar. Eu quero ver prova”. Raquel também argumentou que a atuação individual de um servidor não poderia ser atribuída automaticamente ao governo.
A campanha da governadora também adotou medidas judiciais após a repercussão do caso. Raquel apresentou uma interpelação judicial para que João Campos esclarecesse as acusações de existência de uma suposta “milícia digital” a partir do Palácio do Campo das Princesas. Na ocasião, sua defesa sustentou que o adversário havia atribuído à administração estadual a atuação de uma organização clandestina e pediu que ele indicasse em quais fatos baseava as declarações.
Raquel também afirmou que sua campanha havia denunciado ao Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE) mais de 430 perfis que classificou como “robotizados” e uma outra suposta estrutura, formada por mais de 40 perfis, que, segundo ela, atuaria na disseminação de ataques contra sua candidatura.


