Naquele tempo, a mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus com seus filhos e ajoelhou-se com a intenção de fazer um pedido. Jesus perguntou: “O que tu queres?” Ela respondeu: “Manda que estes meus dois filhos se sentem, no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda”. Jesus, então, respondeu-lhes: “Não sabeis o que estais pedindo. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?” Eles responderam: “Podemos”. Então Jesus lhes disse: “De fato, vós bebereis do meu cálice, mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. Meu Pai é que dará esses lugares àqueles para os quais ele os preparou”. (Mt 20,20-28)
Caros leitores, a sabedoria da liturgia neste dia nos apresenta o testemunho do martírio e do apostolado de São Tiago, chamado maior, “O primeiro a beber do cálice do Senhor” (antífona de comunhão), um amigo do Senhor. É instigante meditarmos quantas referências nos evangelistas encontramos ligando Tiago ao Mestre, aliás, dentre os doze parece-nos que alguns se destacam nessa relação de intimidade, de confiança e afinidade.
Juntamente com Pedro, André e João, Tiago cultiva uma relação mais próxima a Jesus, uma relação de amizade profunda. Muitas vezes Jesus os tomava à parte e lhes dava uma confiança diferenciada. Para a ressurreição da filha de Jairo por exemplo, São Marcos diz: “Jesus não permitiu a nenhum dos seus discípulos que o seguisse, exceto Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago”. São Lucas diz: “Não permitiu a ninguém entrar na casa com os pais, exceto Pedro, Tiago e João” (8, 51). Para a transfiguração, São Mateus (17, 2) e São Marcos (9, 1) dizem-nos: Jesus tomou à parte Pedro, Tiago e João, sozinhos consigo, e levou-os à montanha para rezar. O privilégio é ainda acentuado pelos seus “segredos”, é o que lemos nas escrituras. Interrogavam-no em segredo, diz São Mateus (24, 4) à parte, separadamente, diz São Marcos (13, 3); Na Ceia, Pedro, João e Tiago estavam sentados junto de Jesus.
O que isso nos ajuda na caminhada de cristãos? Ora, será que estamos alimentando nossa amizade, nossa intimidade com o Divino Mestre? Até onde somos íntimos do Senhor? Até onde Ele tem a autoridade em nossa vida em adentrar em nossos segredos, e nos chamar a parte nos levando para dentro de nós mesmos, a recantos que só nós conhecemos! Para o Getsémani, São Mateus (26, 36) e São Marcos (14, 33) dizem-nos: “Jesus deixou os seus discípulos à entrada do jardim, mas tomou consigo Pedro, Tiago e João”. O jardim do antigo testamento é o ambiente que simboliza a intimidade, pois, geralmente, ele fica no interior da casa, tem acesso quem é convidado, portanto, nos perguntemos: quantas vezes estou levando Jesus ao jardim de minha existência, ao interior de minha vida? Ele tem acesso?
No texto do Evangelho para esta Festa do Apóstolo São Tiago (Mateus 20, 20-28), nós lemos aquela cena um tanto quanto cômica, de uma mãe, que assim como todas as mães de boa-fé, buscam sempre o melhor para seus filhos, e em algumas vezes fazem qualquer coisa para isso, mesmo que por algumas vezes passe dos limites do bom senso.
A verdade é que naquele momento do discipulado, as pessoas que seguiam a Jesus ainda não tinham total consciência de quem de fato Ele é, ou, qual seria de fato sua tarefa. Eles passaram toda sua vida aguardando a restauração, a sucessão do trono de Davi, e até mesmo a submissão dos outros povos ao julgo de Israel, não é difícil compreender a fala daquela mãe, ela é fruto do seu tempo, exemplo dos medos, das ânsias, e sonhos do seu povo.
Jesus, caqueticamente corrige aquela simples mulher, apresentando duas questões fundamentais de sua missão: a consequência da obediência total ao projeto do Pai, representada no cálice que iriam beber “Podeis beber o cálice que Eu estou para beber?” (v.22); e a autoridade do Filho de Deus legitimada no Serviço “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (v.26-27).
O que esta liturgia nos ensina hoje, é que não existe seguimento a Cristo para vangloriar-se, para ser o centro, para ser “insubstituível”, esse tipo de mentalidade e comportamento devemos deixar fora, devemos abandonar, não faz parte do Reino de Deus. A obediência ao Pai nos faz ter atitudes semelhantes as de Jesus, fundamentadas no serviço, um serviço ao outro, principalmente, aqueles que não podem nos oferecer nada em troca.
Portanto, olhemos para essa testemunha fiel de Cristo, e ouçamos o desabafo de São Paulo na primeira leitura, que diz: “trazemos este tesouro em vasos de barro, para que se veja que este extraordinário poder é de Deus e não é nosso” ( II Cor 4,7), e nos esforcemos para que a nossa vida possa de fato transparecer nossa amizade com Jesus, e que essa intima relação nos leve a obedecer a missão por ele deixada: amar e servir. Pois, este é o nosso trono, este é o nosso tesouro.
Sobre vós desça a bênção do Deus Todo-poderoso. Pai, Filho e Espírito Santo. Amém!
Pe. Gutembergue Lacerda
Sacerdote da Diocese de Afogados da Ingazeira
Vigário Paroquial da Paróquia de São José / São José do Belmonte


