
O aumento das desigualdades e o agravamento das restrições financeiras têm piorado o enfrentamento da epidemia de Aids no Brasil e no mundo, levando ao crescimento de novas infecções e tornando mais distante a meta de a doença deixar de representar uma ameaça de saúde pública até 2030.
O alerta vem de um novo relatório do Unaids (Programa das Nações Unidas sobre HIV/Aids), lançado nesta terça (29), na antevéspera do Dia Mundial da Aids, em 1º de dezembro.
No Brasil, as desigualdades impactam a resposta ao HIV de diferentes formas, com a população negra sendo a mais afetada. Dados do Ministério da Saúde entre 2010 e 2010 mostram uma queda de 9,8% na proporção de casos de Aids entre as pessoas brancas. Já entre os negros, houve um aumento 12,9%.
No mesmo período, disparidade semelhante foi observada em relação aos óbitos por doenças decorrentes da Aids: redução de 10,6% na proporção de mortes entre as pessoas brancas e alta de 10,4% entre as pessoas negras.
“É uma situação inaceitável, que demonstra o impacto direto das desigualdades e do racismo estrutural na vida de milhares de pessoas que têm todo o direito de se beneficiar dos avanços na resposta ao HIV e à Aids”, afirma Claudia Velasquez, diretora e representante do Unaids no Brasil.
Também representam barreiras para o acesso aos serviços de HIV o estigma, a discriminação e a criminalização de populações-chave, travestis e pessoas trans, gays e homens que fazem sexo com outros homens, profissionais do sexo, pessoas em privação de liberdade e usuários de drogas injetáveis.
“O Brasil é um exemplo na resposta ao HIV, mas as desigualdades seguem impactando negativamente e gerando barreiras que impedem o acesso aos serviços de pessoas em vulnerabilidade”, explica Velasquez.
Segundo ela, é comum que as desigualdades se cruzem. Por exemplo, uma pessoa trans, negra, vivendo com HIV e em situação de rua terá muita dificuldade de acesso aos serviços de saúde e seguir com o tratamento.
“Reconhecer a interseção de desigualdades é um elemento chave para uma abordagem integral da resposta ao HIV. O fracasso em fazer progressos para impedir a infecção pelo HIV nas populações-chave prejudica toda a resposta à pandemia de Aids e ajuda a explicar a desaceleração do progresso [em relação à resposta].”




